Marie-Louise Eta despede-se da equipa masculina do Union Berlim com história feita
Marie-Louise Eta despede-se neste sábado do comando masculino do Union Berlim. Sai como a primeira mulher a vencer na Bundesliga.
Neste sábado, o Union Berlim recebe o Augsburg no último jogo da temporada da Bundesliga. É também o último jogo de Marie-Louise Eta à frente da equipa masculina do clube alemão. A treinadora de 34 anos sai com um feito que nenhuma mulher tinha conseguido antes nas cinco principais ligas europeias de futebol masculino.
Eta assumiu o comando interino do Union Berlim em 11 de abril, após a demissão de Steffen Baumgart, tornando-se na primeira mulher a treinar uma equipa masculina nas grandes ligas europeias. A nomeação gerou uma onda de comentários depreciativos nas redes sociais, que o clube rejeitou publicamente.
Primeira vitória histórica

O início não foi fácil. Nas primeiras duas partidas, o Union Berlim perdeu frente ao Wolfsburg e ao RB Leipzig. Na terceira jornada, um empate a 2 a 2 frente ao Colónia garantiu a permanência do clube na primeira divisão alemã. Na quarta, a 10 de maio, chegou a vitória histórica: 3 a 1 sobre o Mainz, com golos de Andrej Ilic e, nos minutos finais, de Oliver Burke e Josip Juranovic.
Foi a primeira vitória de uma mulher como treinadora principal nas cinco grandes ligas europeias. Eta celebrou com um soco no ar e juntou-se aos jogadores para aplaudir os adeptos. Às câmaras da DAZN, foi direta: “Não se tratava de conquistas pessoais, mas de fazer o trabalho da melhor forma possível, conquistar pontos e vencer jogos. Trabalhámos muito para isso.”
Carreira como jogadora: campeã da Champions League
Natural de Dresden, nasceu Marie-Louise Bagehorn em 7 de julho de 1991. Cresceu com uma bola nos pés e aos 13 anos já era disputada por vários clubes alemães. Assinou pelo Turbine Potsdam, onde conquistou três títulos do campeonato alemão e, em 2010, a Liga dos Campeões feminina, ao bater o Lyon numa decisão por grandes penalidades que terminou 7 a 6. Nesse mesmo ano, sagrou-se campeã mundial de sub-20 com a seleção alemã, num torneio disputado em casa. Representou ainda o Hamburgo, o BV Cloppenburg e o Werder Bremen antes de encerrar a carreira como jogadora aos 26 anos, devido a lesões.
Da relva ao banco: um percurso de pioneira
A transição para a área técnica foi tão marcante quanto a carreira de jogadora. Em 2023, tornou-se na única mulher do seu ano de formação a obter a Licença Pro da UEFA, a máxima certificação para treinadores no continente. Nesse mesmo ano, integrou a equipa técnica do Union Berlim como primeira mulher na história a fazer parte de uma comissão técnica principal na Bundesliga. Em 2024, orientou o clube numa partida a título interino durante a suspensão do treinador, outro feito inédito.
Mulheres no poder do futebol: uma revolução em curso
O percurso de Eta insere-se numa mudança mais ampla no futebol mundial. Em Espanha, Amaia Gorostiza preside ao SD Eibar e Beatriz Álvarez lidera a Liga F, a primeira divisão feminina espanhola. Em França, a empresária norte-americana Michele Kang adquiriu o Olympique Lyonnais masculino, tornando-se na primeira mulher a controlar um dos clubes mais titulados da Europa. Nadine Kessler, antiga jogadora do Wolfsburg e campeã da Liga dos Campeões feminina, dirige o futebol feminino na UEFA como Managing Director. Sarai Bareman lidera a estratégia de futebol feminino na FIFA.
Na Alemanha, Sabrina Wittmann foi a precursora de Eta ao assumir o comando técnico do FC Ingolstadt, clube da terceira divisão masculina, antes de qualquer mulher chegar à Bundesliga. Os números confirmam a tendência: desde 2003, treinadoras femininas venceram as últimas seis edições dos Jogos Olímpicos e as últimas oito edições do Campeonato da Europa feminino. No Mundial feminino, as mulheres ocuparam apenas 24% das vagas de treinador entre 1991 e 2023, mas conquistaram 44% dos títulos.
Portugal: 100% dos cargos de presidência ocupados por homens

Em Portugal, o contraste com o que se passa lá fora é gritante. Segundo o Boletim Estatístico 2025 da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, Portugal não tem uma única mulher na presidência dos órgãos de liderança desportiva, entre federações, comités e ministérios, com 100% dos cargos de presidência ocupados por homens. A direção da Liga Portuguesa de Futebol Profissional eleita para 2025/26 é constituída exclusivamente por homens, invertendo a tendência da época anterior, em que Alexandrina Cruz, presidente do Rio Ave, e Júlia Almeida, diretora-executiva do Casa Pia, eram as únicas representantes femininas.
Ainda assim, há sinais de mudança. Em maio de 2026, Andreia Nunes L’or tornou-se na primeira mulher portuguesa a deter a maioria do capital de uma SAD, ao assumir o controlo do Alcochetense, clube do Campeonato de Portugal. Antiga jogadora federada e empresária, chega com ambição declarada de levar o clube à Liga 3. “Com orgulho, responsabilidade e muita visão, assumo a SAD do Alcochetense. Ser mulher neste lugar torna este momento ainda mais simbólico”, afirmou.

No mundo dos agentes, Daniela Lopes tornou-se numa das poucas mulheres a singrar como agente FIFA em Portugal, pela Shire Sports Management. Natural de Mirandela, foi jogadora federada antes de enveredar pela carreira de intermediária. É responsável pela maior transferência do futebol feminino em Portugal, ao negociar a passagem de Telma Encarnação do Marítimo para o Sporting, e opera também nos mercados da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos. “Fui conhecendo a área e, naturalmente, encontrei dificuldades. Mesmo em Portugal, muita desconfiança”, revelou.
Próximo destino: equipa feminina
Na vida pessoal, Eta é casada desde 2014 com Benjamin Eta, também treinador de futebol. O casal partilha a paixão pelo desporto e, nos tempos livres, o padel e o snowboard. Neste sábado, fecha um capítulo no futebol masculino. Na próxima temporada, assume o comando da equipa feminina do Union Berlim. A história, essa, já estava escrita.