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Margarida Pinto Correia “Quando eu morrer, por favor, riam”

É em cima de um palco que se sente mais completa, embora acredite que não é boa atriz. Diretora Adjunta de Relações Institucionais e Stakeholders do grupo EDP, fala das suas ambições profissionais, da família e de como, com a morte da irmã Clara, reaprendeu a lidar com o luto e com a perda.

Margarida Pinto Correia “Quando eu morrer, por favor, riam”

Margarida, fizeste 60 anos a 30 de abril. Se a tua vida pudesse ser contada através de uma canção, qual seria?

Ui… Qual era a minha cantiga? Epá, uma coisa são as cantigas que nós gostamos, outra são as que cantam as nossas histórias. Não sei… Seria seguramente uma canção de Jorge Palma. Uma qualquer. Ou do Lou Reed.

Eles têm uma força comum?

Sim. O Jorge Palma tem aquela coisa inacreditável de nos ultrapassar, de ser sempre mais belo do que a realidade. Há outra pessoa que também parece sempre que está a escrever sobre nós, que é a Mafalda Veiga. Há várias canções dela que eu, quando as ouvi a primeira vez, disse: “Mas como é que ela sabe isto sobre mim?”. Isso é muito incrível.

E o Jorge Palma?

O Jorge é mais o wishful thinking. É o sítio onde tu gostavas de estar em termos de sentimento, de posicionamento.

E onde é que tu gostavas de estar agora? Não fisicamente, mas em que fase da tua vida gostavas de estar?

Adorava estar quase a estrear uma peça de teatro.

E não estás porquê?

Porque deixei de fazer teatro há uns anos. Não por ter sido uma decisão. O que aconteceu é que fui fazendo cada vez menos coisas. Tenho feito umas pequeníssimas participações numas séries, mais por gosto do que outra coisa. Assim umas coisas muito simbólicas.

O que é que o teatro te dava?

Em boa verdade, e isto parece uma data de coisas que não são, mas dava-me plenitude. Eu não acho que seja uma atriz por aí além, mas quando estou a fazer teatro é quando me sinto mais plena, mais absoluta. Por dezenas de outras coisas que fiz na vida, por dezenas de outras coisas que me entusiasmam ainda hoje no que faço profissionalmente, nunca me senti tão inteira como no teatro. É uma coisa quase simbólica, quase à la sonho, mas é a mais absoluta verdade.

Que memórias é que tens do teatro?

A última peça em que participei já foi há uns 15 ou 20 anos. Foi no ABC da Mulher, era uma peça encenada pela Rita Loureiro e que foi uma sequência de uma outra peça que eu amei fazer no Teatro São Luís, que foi a Caixa de Sombras. Depois disto, eu estava muito absorta a fazer milhares de outras coisas. E, portanto…

Ias ser mãe…

Nessa altura já era mãe. Já tinha quatro [filhos] à minha guarda. Porque tinha os dois do Luís [Represas, pai de João e Carolina, de uma relação anterior] e mais os nossos dois [Nuno e José Alberto]. Sempre foram quatro. Essa conta nunca se fez dois mais dois, sempre se fez a quatro. E já existiam na fase destas duas peças. Eu estava na Fundação do Gil e estava muito absorta. Era muito importante que aquilo funcionasse, que aquilo provasse uma série de verdades, de necessidade, de não parar, de crescer e de dar mais resposta a um mal que ainda hoje existe, que é o mal social dentro do mal clínico.

Ficaste aí muito presa.

Fiquei. Nessa fase, já depois do teatro, eu tinha a identificação de uma coisa que eu tinha vergonha de dizer porque achava que era muito egoísta, que era eu sentir saudades de mim própria.

O que isso significa?

Queria dizer que sentia saudades daquilo em que eu estava mais completa. Porque eu estava a fazer uma série de papéis em que eu me revia e onde eu devia estar na vida real. Eu estava na Fundação do Gil e estava a fazer crónicas de viagem, fiz também algumas reportagens de que muito me orgulho. Fazia coisas complementares, mas o meu prato forte era a Fundação do Gil. Era uma fase de crescimento e de afirmação da Fundação e, portanto, todos esses papéis da minha vida eram muito importantes e eu não sentia que fosse justo, ou que fosse permitido, eu também fazer de mim no meu mais puro papel, que era ser atriz. Portanto, fui abandonando esse barco e depois estas coisas são um bocadinho bola de neve: tu vais deixando de fazer e de estar no meio e de te mostrar disponível e as pessoas também acham que tu não estás disponível.

Leia ainda: Clara Pinto Correia – A única palavra que Margarida Pinto Correia usou para reagir à morte da irmã

Leia a entrevista completa na NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas!

Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Helena Morais, Arquivo Impala. 

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