Judite Sousa “Quem é que já não sentiu o peso da traição?”
Estreia-se na ficção literária com o cruzamento de História e feridas profundas de dez mulheres. Nesta sua primeira entrevista sobre a obra, cujo lançamento acontece no dia 30, a ex-jornalista revela que a intensidade das personagens chegou a obrigá-la a parar: “Escrever é emocionalmente pesado”.
Depois de 40 anos a relatar factos e com 11 livros publicados, esta obra surge como uma entrada no domínio da ficção. Foi preciso “inventar” para conseguir ser mais verdadeira?
A minha escrita nada tem a ver com a minha carreira. O meu trabalho jornalístico fala por si com o reconhecimento do público expresso em liderança de audiências. A escrita é algo mais sublime. É a minha voz interior através das personagens deste livro.
Mas essa “voz interior”, quando se manifesta através da ficção, sente-se mais livre para tocar em temas que o código do jornalismo costuma interditar?
Este livro não tem a ver com a minha carreira. É um livro de ficção escrito pela Judite Sousa que entregou a sua carteira profissional. É um livro escrito por uma ex-jornalista. É uma obra de ficção que se situa no plano das letras. Podemos dizer que é um território de intimidade nas vidas de dez mulheres que ficcionei.
Como foi o processo de escolher essas 10 mulheres? Houve alguma história que tenha ficado de fora por ser demasiado “pesada”?
Não. Eu ficcionei dez como poderia ter ficcionado vinte. É o livre arbítrio de um escritor. Mário Vargas Llosa, que foi prémio Nobel da Literatura, escreveu um romance sobre a prima direita, com quem se casou. Digamos que, na prosa literária, a liberdade de criação não tem limites.
Confessa na introdução que se sentiu insegura e “nada crente” sobre a sua capacidade para criar este livro. Vindo de alguém que enfrentou as câmaras, o que é que a intimidade da ficção tem de tão assustador que o jornalismo nunca teve?
Escrever um livro não está ao alcance de todos. E ficcionar, por maioria de razão, também não. Assumo perante o leitor as minhas dúvidas e as minhas inseguranças pela simples razão de que nunca tinha entrado no universo da ficção. Todos os escritores em algum momento partilharam os mesmos avanços e recuos. Escrever é emocionalmente pesado.
Esse peso sentiu-se mais na construção da estrutura histórica ou no momento de dar sentimentos às personagens?
Escrever é um exercício intelectual e fisicamente esgotante. O autor tem que viver a história e sentir o pulsar das personagens. Comecei a escrever este livro há ano e meio e, ao fim de seis meses, tive que parar. A densidade das personagens e as suas histórias de vida eram emocionalmente muito intensas.
A história dessas dez mulheres situa-se em situações de limite: abandono, traição, assédio moral, violência psicológica, etc. Sentiu, em algum momento, que estava a emprestar-lhes a sua voz? São personagens que, de alguma forma, a ajudaram a organizar as suas próprias memórias?
Este livro é ficção. Não é uma autobiografia. Isso talvez possa ficar para mais tarde. A minha vontade íntima foi criar histórias de mulheres reais que as leitoras irão identificar como podendo corresponder às suas próprias vidas.
Mas sentiu necessidade de validar estas histórias com casos reais ou a sua observação foi suficiente para criar estas “mulheres reais”?
Estas são histórias ficcionadas, mas que corresponde a vivências reais. Quem é que já não sentiu o peso da traição, por exemplo? As leitoras, qualquer que seja a sua condição, irão rever-se nos casos que ficcionei.
Estas mulheres representam experiências distintas ou são, de certa forma, variações do mesmo percurso emocional?
Cada história é um capítulo. A narrativa do romance implica o amor ou o desamor, a traição e todas as outras temáticas que abordo. Encontramos estes temas nos clássicos da literatura. O que fiz foi cruzar a narrativa do romance ao nível do conteúdo com as lições da História e da Medicina que ajudam a compreender a complexidade dos problemas reais da vida. São mulheres que, em algum momento, tropeçam na vida e se superam. A superação é uma das ideias centrais.
E essa superação acontece mais por um clique interior ou por ajuda externa? O que é que faz estas mulheres “levantarem-se”?
A força das mulheres ao longo da história é factual. Olhe, tivemos a Cleópatra, a Marie Curie, que ganhou dois prémios Nobel, tivemos a Catarina da Rússia… É essa força feminina que pretendo comunicar.
Leia a entrevista na íntegra na NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas!

Texto: Ana Filipe Silveira; Fotos: Helena Morais e Arquivo Impala.