Japão: “Dama de ferro” procura mandato reforçado nas eleições de domingo

Os apoiantes de Sanae Takaichi costumam gritar “hatarakuzo!” (“eu vou trabalhar!”) nos comícios da campanha para as eleições antecipadas de domingo, respondendo ao desafio da primeira mulher a chefiar um governo no Japão.

Japão:

Takaichi apresenta-se como uma líder trabalhadora, acessível e símbolo de renovação, gerando uma onda de entusiasmo mesmo entre os jovens, apesar de ser ultraconservadora e admirador a “dama de ferro” britânica Margaret Thatcher (1925-2013).

A popularidade da primeira-ministra tem sido destacada pela imprensa internacional, como assinalou esta semana o jornal britânico The Financial Times (FT) num artigo sobre o “magnetismo de Takaichi”.

“A fama repentina de Takaichi, pelo menos por enquanto, aliviou um pouco do desespero público de longa data em relação à política japonesa”, considerou o FT.

Takaichi, 64 anos, “herdeira política” de Shinzo Abe, o antigo primeiro-ministro assassinado em 2022, pode conseguir uma vitória folgada nas eleições para a câmara baixa do parlamento.

Esse foi, aliás, o seu objetivo quando anunciou as eleições em 19 de janeiro, cerca de três meses depois de ter sucedido a Shigeru Ishiba na chefia do executivo e do Partido Liberal Democrata (LDP, como é conhecido).

“Será Takaichi apta para o cargo de primeira-ministra? Quis deixar a decisão ao povo soberano”, justificou então.

O propósito de Takaichi parece claro, dado que goza de uma aprovação superior a 60%, muito acima da intenção de voto no partido.

O LDP tem governado o Japão quase ininterruptamente nos últimos 80 anos, mas viu a popularidade afetada por escândalos de financiamento e pela incapacidade de travar a inflação galopante.

Takaichi herdou um LDP com uma maioria frágil de apenas um deputado na Câmara de Representantes em coligação com o Partido da Inovação do Japão (Ishin).

Sondagens recentes do jornal Nikkei, citadas pela agência espanhola EFE, apontam que o LDP pode eleger, sozinho, 233 dos 465 dos deputados.

Se os resultados se aproximarem das sondagens, Takaichi pode conseguir um mandato reforçado e confirmar o sucesso de uma jogada que não é inédita no Japão, onde é raro cumprir-se a legislatura de quatro anos.

Os principais concorrentes são a Aliança Reformista Centrista (CRA), formada pelo Partido Democrático Constitucional (PDC) e pelo budista Komeito, que foi aliado do LDP durante qualquer três décadas.

Também se antecipa uma subida do Sanseito, um partido de extrema-direita anti-imigração.

Com apenas 12 dias de campanha oficial, as eleições realizam-se sob um inverno rigoroso, com muita neve a causar pelo menos 38 mortos e a dificultar o envio de boletins de voto para zonas mais remotas.

Com uma inflação persistente de cerca de 3% e o declínio dos salários reais, a economia tem dominado o debate.

Takaichi prometeu uma política fiscal expansiva, incluindo um orçamento para 2026 de 122,3 biliões de ienes (cerca de 660 mil milhões de euros, ao câmbio atual) e a isenção de impostos sobre alimentos durante dois anos.

As medidas têm gerado nervosismo nos mercados, contribuindo para a depreciação do iene.

Apesar de o entusiasmo sobre Takaichi ser um fenómeno interno, a que não será alheio o facto de ser a primeira mulher no cargo, as ramificações das eleições terão um impacto global, segundo o FT.

O mandato, apesar de curto, “já provocou abalos nos mercados” japonês e norte-americano, e uma “disputa contínua entre o Japão e a China ensombra a relação comercial mais importante da Ásia”, escreveu o jornal.

As relações com Pequim deterioraram-se após Takaichi ter sugerido em novembro que o Japão podia intervir militarmente se a China atacasse Taiwan.

Embora se tivesse oferecido para dialogar com Pequim, Takaichi não retirou as declarações e manteve uma postura firme que agrada ao eleitorado mais nacionalista do LDP, mas preocupa os parceiros comerciais na Ásia.

Analistas preveem que Pequim possa intensificar a pressão comercial através da restrição de exportações de terras raras, componentes críticos para a indústria tecnológica japonesa, referiu o FT.

Takaichi tem demonstrado uma presença ativa na cena internacional, e no pouco tempo em funções recebeu em Tóquio líderes como o norte-americano Donald Trump ou o britânico Keir Starmer.

Tem advogado reforçar o legado de Abe, que a chamou para o seu primeiro governo em 2006, nomeadamente em matéria de política externa, com o fortalecimento das alianças tradicionais do Japão e um maior investimento na defesa.

Do lado da Europa, a especialista em relações com o Japão e Ásia-Pacífico do Conselho Europeu para as Relações Externas, Elli-Katharina Pohlkamp, defendeu, em novembro, que o Japão será um parceiro indispensável com Takaichi, mas isso não será automático.

“Se a Europa não agir, corre o risco de ficar a assistir na bancada enquanto o Japão se enreda num bloco económico e de segurança liderado pelos Estados Unidos”, alertou.

Defendeu, para isso, que Bruxelas deve apostar numa cooperação mais estreita com Tóquio em vários domínios, incluindo minerais críticos, segurança da informação, redução à exposição às cadeias de abastecimento da China e esforço de rearmamento japonês.

“Isto vai permitir à UE moldar, em vez de apenas reagir à agenda Takaichi-Trump”, justificou.

PNG // EJ

By Impala News / Lusa

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