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Igualdade de género em Portugal: A década em que a administração pública ultrapassou o privado

Saiba como evoluiu a igualdade entre mulheres e homens em Portugal na última década. Analisamos salários, cargos de chefia e os desafios que persistem em 2026.

Igualdade de género em Portugal: A década em que a administração pública ultrapassou o privado

Na última década, registou-se aceleração na igualdade de género, mas em que ponto estamos, de facto? Portugal escalou posições no Índice de Igualdade de Género do EIGE, fixando-se em 2026 no 10.º lugar da União Europeia. Este progresso, contudo, não é uniforme. Vivemos num país a duas velocidades, onde o setor público serve de exemplo e o privado teima em manter velhos hábitos.

A revolução silenciosa da Administração Pública

No setor público, a transparência é a palavra de ordem. Graças a tabelas remuneratórias rígidas e concursos públicos, a disparidade salarial entre João e Joana (as nossas personagens tipo) é quase inexistente.

– A diferença salarial horária no Estado ronda os 2% a 3%.
– As mulheres ocupam hoje cerca de 50% dos cargos de direção intermédia e superior.
– A Lei da Paridade forçou uma renovação nas lideranças que o mercado livre ainda não acompanhou.

O abismo no setor privado

No mundo das empresas, o cenário é menos otimista. Em 2026, a remuneração permanece como o principal marcador de desigualdade.

– Em média, as mulheres no setor privado ganham menos 15,4% do que os homens.
– Nos cargos de direção e gestão, esta diferença chega aos 18,7%.
– Em funções técnicas ou de operação de máquinas, o fosso pode atingir os 25%.

A luta pelo topo

O fenómeno do “teto de vidro” continua bem presente. Muitas mulheres chegam à gestão média, mas são travadas no acesso aos conselhos de administração. A Lei das Quotas de 2017 ajudou nas empresas cotadas em bolsa, onde a presença feminina subiu para 36,6%, mas nas restantes empresas a barreira permanece sólida.

A sombra da violência e a dupla jornada

Não pode falar-se de igualdade sem se olhar para os dados da APAV de 2025/2026. O número de pessoas apoiadas aumentou significativamente nos últimos anos.

– A maioria das vítimas (75,5%) são mulheres.
– A violência doméstica continua a ser o crime mais reportado, com um crescimento nos casos em contexto familiar.

A dupla jornada – trabalho profissional somado ao trabalho doméstico invisível – ainda recai maioritariamente sobre as mulheres, condicionando a sua saúde mental e progressão de carreira.

O caso Real: João vs. Joana (a realidade lado a lado)

Para compreendermos como estes dados moldam vidas, simulámos o percurso de dois indivíduos com o mesmo currículo e competências em 2026, João e Joana.

No setor privado: O peso do invisível

A Entrada: O João é contratado com um salário base de 1.600€. A Joana, para a mesma função, recebe 1.520€. Apesar da lei, a negociação inicial e pequenos bónus de disponibilidade favorecem o João.
A Parentalidade: O João goza os 28 dias obrigatórios e regressa focado. A sua imagem profissional sai reforçada. A Joana goza a licença completa e, ao regressar, nota que os projetos críticos foram entregues a colegas que “estiveram presentes”.
O Topo: Aos 40 anos, o João é Diretor. A sua rede de contactos é sólida. A Joana é Gestora Sénior, mas o seu tempo é consumido pela gestão doméstica e escolar dos filhos, impedindo-a de aceder aos círculos de decisão informais que levam à administração.

Na administração pública: A força da regra

A Entrada: João e Joana concorrem ao mesmo Ministério. Entram com o salário exato de 1.420€. Não há margem para desvios ou negociações opacas.
A Parentalidade: O João sente-se seguro para partilhar a licença de forma mais equitativa. A Joana não teme perder o lugar ou a progressão, uma vez que o sistema SIADAP contabiliza o tempo de licença como serviço efetivo.
O Topo: A Joana chega a Diretora-Geral através de concurso público. A Lei da Paridade garante que as listas de direção cumpram a regra dos 40%, combatendo o antigo domínio masculino nestes cargos de prestígio.

O veredito de 2026

Portugal fez o trabalho de casa legislativo, mas a mudança cultural é mais lenta. O País aproxima-se da paridade no acesso ao trabalho, mas a igualdade ainda não chegou totalmente ao recibo de vencimento nem à divisão das tarefas em casa. O futuro exige que o setor privado aprenda com o rigor do público.

Luís Martins; WiN

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