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Igualdade de género nos media: O retrato de um país que parece estar a recuar no tempo

Um novo estudo do GMMP revela que presença feminina nas notícias em Portugal recuou para níveis de 2015. Descubra a cronologia e os dados que preocupam os especialistas.

Igualdade de género nos media: O retrato de um país que parece estar a recuar no tempo

A igualdade de género nos media portugueses, que parecia estar numa rota de progresso lento, mas constante, enfrenta agora um revés inesperado. Segundo os dados mais recentes do Global Media Monitoring Project (GMMP), apresentados em fevereiro de 2026, Portugal apresenta sinais claros de regressão, colocando a representação feminina em níveis semelhantes aos registados há uma década.

Um salto atrás de dez anos na visibilidade feminina

O relatório nacional, coordenado por Rita Basílio Simões, da Universidade de Coimbra, revela que as mulheres representam apenas 24% das pessoas visíveis nos noticiários em Portugal. Este valor não só é inferior à média global (26%), como representa uma queda acentuada face aos 34% alcançados em 2020.

Este recuo é particularmente preocupante porque anula os ganhos de uma “evolução positiva” que se verificava desde 2005. Na prática, Portugal “voltou a 2015”, perdendo o fôlego que a pandemia de COVID-19, paradoxalmente, parecia ter impulsionado ao trazer mais especialistas (ainda que poucas) para o espaço público.

Cronologia da (des)igualdade nos media portugueses

1995: Início do GMMP a nível mundial, monitorizando a disparidade de género de cinco em cinco anos.
2005: Portugal integra o estudo pela primeira vez, iniciando o mapeamento sistemático da presença feminina.
2015: A visibilidade feminina estagna, mas começam a surgir os primeiros planos de igualdade estruturados em instituições públicas.
2020: O ponto alto da representação em Portugal, com 34% de visibilidade, impulsionado pela presença feminina em temas de saúde e sociedade.
2024: A ERC publica um estudo sobre a representação de género nos blocos informativos, alertando para a persistência de estereótipos.
2025 (maio): Realização da monitorização para a 7.ª edição do GMMP, cujos resultados são agora públicos.
2026 (fevereiro): Conferência em Lisboa e Coimbra confirma a regressão para os 24% de visibilidade.

Vozes de autoridade continuam a ser maioritariamente masculinas

O estudo sublinha que, quando as mulheres aparecem nas notícias, raramente o fazem como fontes de autoridade ou especialistas. São, na maioria das vezes, ouvidas enquanto “populares” ou por associação a figuras públicas. As fontes femininas são três vezes menos consultadas do que as masculinas, mantendo-se um padrão onde o “conhecimento especializado” continua a ter um rosto de homem.

A ilusão do digital e o papel da Lusa no novo estudo

Havia a esperança de que o digital, pela sua natureza mais aberta e democrática, pudesse equilibrar a balança. No entanto, os dados de 2025 mostram o contrário. O digital, que em 2020 roçava a paridade, sofreu o maior tombo, afastando-se do objetivo da igualdade.

Outra novidade desta edição foi a inclusão da Agência Lusa na monitorização. Os resultados revelam padrões de desigualdade ainda mais acentuados do que a média nacional, o que é significativo dado que a Lusa é o principal fornecedor de conteúdos para outros órgãos de comunicação social em Portugal.

Casos semelhantes e o papel da regulação

Este cenário não é isolado. Casos como a cobertura de grandes eventos desportivos ou políticos continuam a mostrar uma margem de progressão enorme. Recentemente, a ERC tem reforçado a necessidade de planos de ação para combater estereótipos, algo que ainda tem pouco eco nas instituições privadas.

A promoção da igualdade não é apenas uma questão de justiça social, mas de qualidade democrática. Enquanto metade da população não for devidamente representada na “produção de sentido” das notícias, o retrato que os media fazem do mundo continuará a ser parcial e incompleto.

Luís Martins; WiN

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