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O que se sabe sobre as mortes no cruzeiro Hondius e o que é o Hantavírus

Investigação confirma hantavírus em surto no cruzeiro Cabo Verde. Saiba como se transmite, os sintomas e os riscos desta doença.

O que se sabe sobre as mortes no cruzeiro Hondius e o que é o Hantavírus

A confirmação de um surto de síndrome respiratória aguda a bordo do navio MV Hondius, que navegava em direção a um porto num cruzeiro Cabo Verde, colocou as autoridades sanitárias internacionais em alerta máximo. Há um cidadão português a bordo. O balanço atual aponta para três vítimas mortais e um caso positivo confirmado de hantavírus num passageiro britânico de 69 anos, que foi evacuado para Joanesburgo. Este incidente isolado no Atlântico levanta questões críticas sobre a segurança sanitária em embarcações de longo curso e a origem da exposição viral num ambiente controlado.

O diagnóstico e a origem do hantavírus

O hantavírus é um género de vírus que vive habitualmente em roedores silvestres, como ratos e ratazanas do campo. Ao contrário de outros vírus respiratórios, a presença num navio de cruzeiro é atípica, uma vez que a transmissão não ocorre habitualmente entre seres humanos. No caso do MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, a investigação foca-se na possibilidade de contaminação de mantimentos ou da presença de roedores em áreas de carga antes da partida.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde da África do Sul confirmaram que o patógeno isolado pertence à família Hantaviridae. Estes vírus são os agentes causadores da Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), doença rara, mas extremamente grave que afeta pulmões e coração, apresentando taxas de letalidade que podem atingir os 40%.

Formas de transmissão: Como se apanha

A transmissão do hantavírus para os seres humanos ocorre quase exclusivamente através da inalação de aerossóis. Quando a urina, a saliva ou as fezes dos roedores infetados secam, os vírus misturam-se com a poeira do ambiente. Ao varrer ou limpar locais onde estes animais estiveram presentes, o ser humano respira estas partículas contaminadas.

  • • Inalação de poeiras contaminadas por excrementos de roedores.
  • • Contacto direto com excrementos, urina ou saliva de animais infetados.
  • • Mordeduras de roedores (situação menos frequente).
  • • Consumo de alimentos contaminados por excrementos de animais portadores.

A transmissão de pessoa para pessoa é excecionalmente rara, tendo sido documentada apenas em estirpes específicas na América do Sul (vírus Andes). Por este motivo, as autoridades de saúde de Cabo Verde mantêm o navio em quarentena preventiva, embora o risco para a comunidade externa seja considerado baixo.

Os sintomas e progressão da doença

Os sintomas iniciais do hantavírus são facilmente confundidos com uma gripe comum ou até com a Covid-19, o que dificulta o diagnóstico precoce. O período de incubação pode variar entre uma a oito semanas após a exposição.

Os sinais precoces incluem febre alta, dores musculares (especialmente nas coxas, nas costas e nos ombros), fadiga extrema, dores de cabeça e calafrios. Sintomas gastrointestinais, como náuseas, vómitos e dores abdominais, surgem em cerca de metade dos pacientes.

Após quatro a dez dias desta fase inicial, a doença progride rapidamente para a fase terminal da síndrome respiratória. O doente começa a sentir falta de ar severa e sensação de aperto no peito, à medida que os pulmões se enchem de fluido. Este quadro clínico de insuficiência respiratória aguda é o que justifica o nome da síndrome detetada no cruzeiro.

“A intervenção precoce e o suporte ventilatório em unidades de cuidados intensivos são as únicas ferramentas eficazes, uma vez que não existe tratamento antiviral específico ou vacina aprovada para o hantavírus”

Riscos além da morte e complicações

Embora a morte seja o desfecho mais dramático, os sobreviventes de hantavírus enfrentam riscos e sequelas prolongadas. A gravidade da infeção pode causar danos em múltiplos órgãos.

  • • Insuficiência Renal Aguda: Algumas estirpes do vírus atacam severamente os rins, exigindo diálise temporária ou permanente.
  • • Sequelas Pulmonares: A inflamação severa pode deixar cicatrizes nos tecidos pulmonares (fibrose), reduzindo a capacidade respiratória a longo prazo.
  • • Hipotensão e Choque: A queda abrupta da pressão arterial pode levar à falência de vários órgãos em simultâneo.
  • • Danos Cardíacos: O esforço excessivo do coração durante a fase crítica da doença pode resultar em miocardites.

“A intervenção precoce e o suporte ventilatório em unidades de cuidados intensivos são as únicas ferramentas eficazes, uma vez que não existe tratamento antiviral específico ou vacina aprovada para o hantavírus”, explicam especialistas em doenças infecciosas.

No caso do MV Hondius, o isolamento dos passageiros e a monitorização constante são essenciais para evitar novos surtos. A situação continua sob vigilância apertada das autoridades marítimas e sanitárias internacionais.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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