Entre Brindes Simone de Oliveira: uma homenagem que nunca será suficiente
Num país onde a cultura tantas vezes fica para segundo plano, há nomes que resistem ao esquecimento. Simone de Oliveira é um deles, e cada homenagem levanta a mesma questão: será que chega?
Simone de Oliveira foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Governo português, numa cerimónia na Casa do Artista, o espaço que hoje chama de casa. Mais uma homenagem. Mais um reconhecimento. E, ainda assim, insuficiente para tudo aquilo que deu à cultura portuguesa.
Falei com ela no próprio dia. Descreveu-me a cerimónia como “muito bonita e agradável”, mas acima de tudo gratificante, e acredita-se. Porque Simone sempre foi isso: uma mulher que sabe reconhecer o valor dos gestos, mesmo quando esses gestos ficam aquém do que merece.
Sou fã. Sempre fui. E não apenas pelo talento, que é imenso, mas pela mulher que sempre foi, que nunca se vergou ao que a sociedade lhe quis impor. Que nunca baixou a cabeça. Que nunca deixou de dizer o que pensa, com frontalidade, mas também com educação. E é impossível não contextualizar o tempo em que se afirmou. Numa sociedade conservadora, fechada, muitas vezes opressiva, Simone ousou ser livre. E pagou o preço por isso. Passou, como se diz em bom português, “as passas do Algarve”. Mas nunca cedeu.
É por isso que continuo a acreditar que uma figura como Simone de Oliveira deveria ser ainda mais valorizada. Num país com uma relação mais profunda com a cultura, talvez o seu lugar fosse outro. Porque é fácil celebrar a liberdade quando ela já está conquistada. Difícil é lutar por ela quando tudo à volta tenta silenciar-nos. A artista fez exatamente isso. Lutou, resistiu, e manteve-se sempre de pé. Com elegância, com força, com uma vontade inabalável de contribuir para um país mais livre e mais consciente.
E depois há o símbolo. Há a canção. Há a frase “quem faz um filho, fá-lo por gosto”, que outrora chocou, provocou, incomodou. E que hoje cantamos sem hesitação. Isso também é legado, também é revolução cultural. Simone não foi apenas uma artista, foi uma voz que abriu caminho, uma presença que desafiou mentalidades, uma mulher que ajudou a mudar um país.
E por isso, por mais medalhas que receba, por mais homenagens que se façam, haverá sempre a sensação de que fica por dar muito mais. Porque há figuras que não se medem em distinções, medem-se na história que deixam.
Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Arquivo Impala & Redes sociais