Entre Brindes Renato Seabra: Quando o crime se transforma em obsessão coletiva
Há histórias que nos recusamos a largar. Não por curiosidade mórbida, mas pela necessidade quase obsessiva de perceber o que nunca fez sentido.
O ser humano sempre teve um fascínio quase inevitável pelo crime, por tudo aquilo que é sombrio, bizarro e difícil de compreender. Há algo no inexplicável que nos prende. E quando esse mistério nos toca de perto, pela proximidade cultural e emocional, a curiosidade deixa de ser apenas curiosidade. Transforma-se em algo maior.
É precisamente isso que acontece com o caso que envolve a morte de Carlos Castro às mãos de Renato Seabra. Mais do que o crime em si, há vários elementos que alimentam este fascínio: duas figuras conhecidas, uma relação envolta em dúvidas, versões contraditórias e um conjunto de perguntas que nunca encontrou respostas claras. Renato sempre afirmou ser heterossexual. Ainda assim, surgiram relatos, entrevistas, suposições, peças soltas de uma narrativa que o público tentou, desde o primeiro momento, montar. E é aqui que nasce a obsessão.
A pergunta repete-se, anos depois, quase como um eco impossível de calar: estaria Carlos a aproveitar-se de Renato com promessas de carreira? Ou seria Renato a tirar partido da influência de Carlos? A verdade é que, no meio de tantas teorias, nenhuma conseguiu fechar o caso na mente coletiva. Porque há histórias que não aceitamos não compreender.
Confesso que, para mim, essa inquietação nunca desapareceu. Pelo contrário, foi crescendo com o tempo. Talvez seja deformação profissional. Talvez seja apenas o impulso humano de procurar sentido no absurdo. Porque continua a ser difícil aceitar que alguém cometa um crime tão brutal sem que exista uma explicação que o torne, de alguma forma, compreensível. Nunca justificável, mas compreensível.
E talvez seja por isso que tantos de nós ficámos completamente agarrados ao podcast do Observador, que reconstruiu ao detalhe a dinâmica entre os dois com base no processo judicial. Não era apenas interesse. Era necessidade. Há casos que ultrapassam a notícia. Que deixam de ser apenas um acontecimento para se tornarem uma espécie de fenómeno coletivo, alimentado por dúvidas, teorias e pela incapacidade de fechar a história dentro de nós.
E talvez seja esse o verdadeiro motivo. Não é o crime, não é a violência, não é sequer quem tinha razão. É o facto de, no fundo, ainda estarmos todos à procura de uma resposta que nunca chegou. E que, provavelmente, nunca chegará.
Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Impala