Entre Brindes Os “bons samaritanos” da internet que alimentam o ódio aos famosos

Num ambiente controlado toda a gente se sente moralmente superior. Mas serão melhores as pessoas que criticam do que as que cometem deslizes em direto?

Entre Brindes Os “bons samaritanos” da internet que alimentam o ódio aos famosos

Há uma tendência cada vez mais popular nas redes sociais: ridicularizar tudo o que é dito na televisão. Recortam-se excertos de programas de entretenimento, isolam-se frases ditas em direto e lança-se o ataque. E que grandes reis se sentem esses “bons samaritanos”, muito corretos e donos da verdade absoluta, quando arrasam apresentadores ou comentadores por algo menos feliz e recebem o aplauso de centenas de milhares de pessoas.

Sim, as aspas são propositadas. A ironia também. Não estou a desculpar comentários infelizes que foram (e continuam a ser) ditos em televisão. Mas também sei que falar em direto é um exercício arriscado. Uma frase mal construída, uma palavra mal escolhida, um raciocínio que sai truncado, tudo pode ser facilmente mal interpretado. E depois de um vídeo se tornar viral, explicar contexto torna-se quase impossível.

O que é curioso é que muitos dos que se dedicam a apontar o dedo fazem-no num ambiente absolutamente controlado: vídeos gravados, palavras escolhidas ao milímetro, discursos muitas vezes escritos por equipas. Na internet, com filtro e edição, tudo parece fácil. O difícil é falar sem rede. Há inclusive influenciadores que evitam entrevistas presenciais como quem foge de um incêndio. Preferem entrevistas por e-mail, para que cada resposta seja revista e reescrita pelas suas equipas de comunicação. O receio? Que lhes aconteça exatamente aquilo que criticam nos outros.

Pergunto-me: até que ponto o que foi dito por Cláudio Ramos no Dois às 10 ou por Liliana Campos no Passadeira Vermelha justifica ameaças de morte, que muitas vezes se estendem às famílias, tentativas de destruir carreiras construídas ao longo de anos, ataques à aparência física ou à inteligência? Quantas vezes todos nós dizemos algo menos feliz no dia-a-dia? E nos apercebemos, tarde demais, que uma frase poderia ter sido melhor pensada? Isso justifica que a nossa integridade emocional ou física seja posta em causa? 

Não podemos exigir empatia se não a praticarmos. Podemos discordar. Podemos criticar. Podemos alertar para o que está errado. Mas contribuir para uma cultura de linchamento digital apenas para nos sentirmos moralmente superiores não nos torna melhores do que quem disse algo infeliz. Aliás, talvez nos aproxime perigosamente daquilo que tanto criticamos.

Texto: Luís Duarte Sousa; Foto: Arquivo Impala. 

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