Deputada pinta o rosto de negro para questionar a identidade de género e gera escândalo nacional
Escândalo na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp): Deputada Fabiana Bolsonaro pinta rosto de negro para atacar identidade de género de Erika Hilton e enfrenta processo de cassação do mandato.
A Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) tornou-se no epicentro de uma crise política e social sem precedentes em março de 2026. A deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL) protagonizou um episódio que está a ser classificado por juristas e parlamentares como um dos mais graves ataques ao decoro e aos direitos humanos da história recente daquela casa.
Ao utilizar maquilhagem escura para cobrir o rosto e os braços em plena tribuna – prática conhecida mundialmente como ‘blackface’ – a parlamentar tentou estabelecer uma analogia direta para atacar a identidade de género da deputada federal Erika Hilton (PSOL).
A “experiência social” que incendiou o Plenário
Durante o tempo regulamentar de discurso, Fabiana Bolsonaro – que apesar do nome não é familiar do antigo presidente brasileiro Jair Bolsonaro – aplicou a tinta perante o olhar incrédulo dos pares. A argumentação centrou-se na premissa de que a autodeterminação não altera a essência biológica de um indivíduo. Segundo a deputada, tal como a pintura preta não a transformava numa mulher negra, a transgeneridade não faria de Erika Hilton uma “mulher real”.
O ato visava contestar a nomeação de Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, marco histórico para a representatividade trans no Brasil. A parlamentar insistiu que o gesto era apenas uma experiência para demonstrar o que considera ser uma “farsa identitária”, mas a narrativa foi prontamente rejeitada pela maioria da assembleia.
Reações oficiais e clima de confronto
A resposta das bancadas de oposição e de movimentos sociais foi célere e contundente. O episódio não foi encarado como um exercício de liberdade de expressão, mas sim como ofensa criminal e violação dos direitos humanos.
A deputada Mônica Seixas (PSOL) interrompeu a sessão de imediato, classificando a performance como um crime de racismo e transfobia cometido em flagrante.
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) confirmou a receção de múltiplas representações para a abertura de um inquérito criminal. No ordenamento jurídico brasileiro, o racismo é um crime inafiançável e imprescritível.
O Conselho de Ética da Alesp recebeu pedidos formais de cassação do mandato assinados por partidos como oPT, PSOL, PSB e PCdoB, alegando que a conduta é incompatível com a dignidade do cargo legislativo.
A própria Erika Hilton recorreu às redes sociais para repudiar o “espetáculo grotesco”, frisando que o uso de símbolos de opressão histórica não pode ser tolerado num estado democrático de direito.
A contradição da autodeterminação racial
Um dos pontos mais sensíveis e contraditórios deste caso surgiu após o levantamento dos registos eleitorais da deputada. Embora tenha afirmado na tribuna ser uma “mulher branca” para justificar a sua experiência, Fabiana Bolsonaro declarou-se como “parda” ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as eleições de 2022.
Esta discrepância não é apenas ética, mas potencialmente legal: as autoridades investigam se a autodeterminação foi utilizada para aceder a fatias maiores de fundos eleitorais destinados a candidatos negros e pardos. O escândalo ganha contornos de fraude eleitoral, o que poderá acelerar o processo de perda de mandato.
Impacto nas redes sociais e na sociedade civil
Nas plataformas digitais, o caso dominou os tópicos mais discutidos (trending topics). Organizações como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e coletivos de defesa dos direitos LGBTQIA+ emitiram notas enfáticas de repúdio. O argumento da defesa, que sustenta tratar-se de uma “crítica política legítima”, tem encontrado resistência na jurisprudência brasileira, que tem endurecido as penas para discursos de ódio mascarados de opinião.
Este incidente reacende o debate sobre os limites da imunidade parlamentar e a urgência de mecanismos mais eficazes para combater a discriminação no coração do poder legislativo brasileiro, e não só. A repercussão internacional coloca o Brasil novamente sob os holofotes no que toca à proteção das minorias e ao combate ao racismo estrutural.