‘Chapas’ paralisam em Maputo ao segundo dia de novos preços dos combustíveis
Ao segundo dia de novos preços de combustíveis em Moçambique, até 45,5% no gasóleo, centenas de transportadores paralisaram em protesto, esta manhã, deixando milhares na rua em Maputo à espera de transporte, por entre forte reforço policial.
No mercado de Xiquelene, onde começa uma das rotas mais afetadas pela paralisação dos ‘chapas’, como são conhecidas as viaturas de transporte público informal, ligando os subúrbios ao centro de Maputo, Aníbal António, 39 anos, espera desde as 05:00. Ao fim de quase três horas, desiste e dá o dia como perdido, compreendendo o protesto dos ‘chapeiros’.
“Devido ao agravamento do combustível, porque 36 meticais [mais 50 cêntimos de euro por litro], não faz sentido, o aumento do gasóleo (…). Logicamente, teve que se paralisar tudo”, reconhece.
Sem transporte numa zona central que liga vários bairros dos subúrbios da cidade de Maputo, muitas centenas acabam por caminhar até ao trabalho, por quilómetros, e debaixo de um sol escaldante.
O Governo já explicou que estes aumentos, aplicados desde quinta-feira e que incluem mais 12% no litro de gasolina – que passou a custar 93,69 meticais (1,23 euros) -, eram inevitáveis, face à subida de preços no mercado internacional devido ao conflito no Médio Oriente. Em cima da mesa está a possibilidade de subsídio ao transporte, mas compromissos anteriores do género, por cumprir, deixam dúvidas a ‘chapeiros’ e utentes.
“E, hoje, os chapeiros estão aborrecidos quando o Estado diz que vão dar subsídio. Eles estão a esquecer-se que em 2021 fizeram a mesma coisa e não cumpriram”, conta Aníbal.
Por agora, é tempo de regressar a casa e somar mais um dia de prejuízo: “Como é que vou trabalhar? Desse jeito não posso trabalhar. E ainda o agravante: A minha família. A situação vai estar renhida”.
Para muitos, a preocupação é já com o próprio trabalho, face às faltas constantes, devido à crise de combustíveis que afeta Moçambique há várias semanas, sem gasóleo ou gasolina nas bombas e filas generalizadas para abastecer que reduzem os transportes.
“O que é isso? Olha só isso. Quanta gente está aqui, quanta família. Que por sua vez, os empregadores vão começar a descartar os empregados. Por quê? Por falta de comparência”, desabafa ainda Aníbal, antes de voltar a casa.
Noutra zona do Xiquelene, a cerca de cinco quilómetros da baixa de Maputo, Arsénio Howana, 32 anos, ‘chapeiro’ há quase 10, está ao volante, mas o ‘chapa’ que conduz está parado, como todos os outros por ali.
“Não dá para trabalhar com estes preços”, diz à Lusa. Em cada viagem de carro cheio faz 270 meticais (3,60 euros), e com o litro de gasóleo agora nos 116,25 meticais (1,54 euros), diz que já não consegue manter o serviço na mesma tarifa.
“Vai ter que subir. Caso não, o Governo vai ter que subsidiar à bomba (…) O subsídio [ao transporte, anunciado pelo Governo] não ajuda. Não chega ao bolso do transportador, não chega ao patronato, não chega à equipa de transporte. Então, o subsídio tem que ser canalizado à bomba. Procurem duas ou três gasolineiras e nós vamos formar as bichas para podermos abastecer o combustível ao valor com desconto”, defende Arsénio.
No local, os colegas apercebem-se de outros a tentarem passar, a fazer o transporte, furando o protesto, e vão bloqueando a passagem, obrigando à saída dos passageiros, antes da rápida intervenção da polícia, que hoje está posicionada por toda a cidade, inclusive com a Unidade de Intervenção Rápida.
Enquanto isso, Arsénio está apreensivo com o que vê na rua e no bolso.
“Muito preocupado, muito preocupado, porque tenho família para sustentar, então estou preocupado. Esse é o meu trabalho, dependo disso para ganhar o pão”, diz.
A preocupação é partilhada por Mateus Salomão, 33 anos e ‘chapeiro’ há cinco, enquanto observa centenas de pessoas sentadas, paradas, à procura de um transporte para a cidade, que não chega.
“Está tudo parado devido à subida do combustível de uma forma exagerada”, conta o ‘chapeiro’, que conduz um carro a gasóleo, onde pesa o aumento de 45,5% em cada litro.
“É muito complicado, por isso que nós parámos para podermos reivindicar o que é de direito, porque não faz sentido de dia para noite o combustível disparar nesses preços. É uma forma absurda de tratar”, queixa-se, assumindo que não sabe o que fazer daqui para a frente.
“Por essa razão que parámos, preferimos parar (…) Devem aumentar o preço do chapa ou devem arrear o preço do combustível para podermos trabalhar, porque agora não temos como trabalhar”, defende.
“São famílias, não só a minha. Somos muitos, todos dependem de transporte. Esse pessoal que está cheio aqui no Xiquelene também depende dos nossos transportes e coletivos. É mesmo grave o que está a acontecer aqui em Moçambique”, desabafa Mateus.
Ao fim de uma hora e meia de espera, Isabel Batista, 24 anos, não conseguiu ‘chapa’ para chegar ao salão onde trabalha no centro da cidade e está prestes a desistir, até porque o dia, que começa bem cedo, está praticamente perdido.
“Posso até caminhar”, diz, para logo a seguir recear pelo mesmo problema, de não ter transporte, e ter de regressar à noite, vários quilómetros, a pé.
O aumento dos preços do transporte, admite, é praticamente inevitável, só não sabe como vai conseguir pagar quando isso acontecer.
“Se o salário não sobe não vai dar para custear o chapa todos os dias”, lamenta.
A preocupação é partilhada por Rita Laura, empregada doméstica de 28 anos: “Mais de duas horas e não há ‘chapa’. Estamos à espera e não sabemos como vai ser”.
A única certeza é que o preço do ‘chapa’ vai ter de subir.
“Com certeza o preço vai subir. Não sabemos para quanto”, diz.
E se os atuais 15 meticais “doem” a pagar, receia pelo futuro: “Não imaginamos como vai ser”, diz, manifestando-se “muito preocupada”.
Como é habitual, a dificuldade gera o aproveitamento e quando Rita ainda espera por um ‘chapa’, um mototaxista oferece o mesmo serviço. O problema é o custo, de 15 meticais (20 cêntimos) no ‘chapa’ para 200 meticais (2,65 euros) de motorizada.
“Não ajuda, nem tão pouco”, diz.
O cenário é visível um pouco por toda a cidade, embora algumas rotas de ‘chapa’ funcionem, perante um claro reforço policial no centro de Maputo, face ao anúncio, de autoria desconhecida e não concretizado, de manifestações e paralisações em protesto, esta manhã.
O Presidente moçambicano reconheceu na quinta-feira que foi inevitável aumentar os preços dos combustíveis, sublinhando que continuam entre os mais baixos da região e pediu que não haja “agitação”.
“Quando nós comparamos com Zimbábue, comparamos com Maláui, comparamos com Zâmbia, comparamos com África do Sul, continuamos a ter os preços mais baixos (…) Por isso, não podemos permitir que os inimigos de desenvolvimento, os inimigos da paz, os inimigos da estabilidade possam trazer boatos, trazer desinformações e poder agitar o povo moçambicano”, disse Daniel Chapo.
*** Paulo Julião (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***
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By Impala News / Lusa