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Canal submarino sob a geleira do ‘juízo final’ explica degelo acelerado da Antártida

Cientistas identificaram um enorme canal submarino sob a geleira Thwaites, na Antártida, conhecida como a “geleira do juízo final”. A descoberta pode explicar por que o degelo está a ocorrer mais rapidamente do que os modelos climáticos previam — e o que isso significa para o nível dos oceanos.

Canal submarino sob a geleira do 'juízo final' explica degelo acelerado da Antártida

A geleira Thwaites, na Antártida Ocidental, é uma das massas de gelo mais monitorizadas do mundo. O apelido que os cientistas lhe deram não é inocente: “geleira do juízo final”. Se derreter completamente, pode elevar o nível médio dos oceanos em mais de 60 centímetros, com consequências devastadoras para centenas de milhões de pessoas em zonas costeiras de todo o mundo e, agora, há uma descoberta que muda a forma como entendemos o seu degelo.

Uma equipa internacional de investigadores identificou um enorme canal submarino escavado sob a base da geleira, por onde água quente do oceano entra e acelera o degelo a partir de baixo. A descoberta pode explicar por que o gelo está a desaparecer mais rapidamente do que muitos modelos climáticos previam e reforça a ideia de que a Antártida ainda guarda mecanismos pouco conhecidos capazes de influenciar diretamente o clima global.

O que é a geleira Thwaites da Antártida

A Thwaites é uma das maiores geleiras do mundo, com uma extensão aproximada de 120 quilómetros de largura. Está situada na Antártida Ocidental, numa região onde o fundo do oceano desce progressivamente à medida que se afasta da costa, o que a torna particularmente vulnerável à intrusão de água quente oceânica.

Ao contrário do que acontece com muitos outros blocos de gelo, a Thwaites está ancorada num fundo que não oferece resistência natural suficiente para travar o avanço do degelo. Uma vez que o ponto de ancoragem recue o suficiente, o colapso pode tornar-se irreversível.

O canal que ninguém esperava encontrar

A nova descoberta foi feita com recurso a tecnologia de radar de penetração no gelo e a modelos computacionais de alta resolução. O canal identificado tem dezenas de quilómetros de comprimento e funciona como via de acesso privilegiada para a água quente do Atlântico Sul, que entra por baixo da geleira e corrói a base do gelo a partir de dentro.

Este mecanismo era suspeito há anos, mas nunca tinha sido mapeado com precisão. A sua existência ajuda a explicar por que as previsões anteriores subestimavam consistentemente a velocidade do degelo: os modelos não incluíam esta via de entrada de calor.

O que dizem os cientistas

O secretário-geral da ONU já tinha alertado para o que estava a acontecer na Antártida. Como já havíamos noticiado antes, o degelo da Antártida foi descrito como “absolutamente devastador” e os cientistas tinham já alertado que o gelo que rodeia a Antártida está a diminuir perigosamente. A nova descoberta acrescenta uma dimensão concreta a esses alertas: não é apenas o gelo à superfície que está a recuar, é a própria base que está a ser corroída.

Impacto no nível dos oceanos

Se a Thwaites colapsar completamente, as estimativas apontam para uma subida do nível do mar entre 60 centímetros e um metro. O perigo não fica por aqui: a geleira funciona também como barreira natural para outras massas de gelo da Antártida Ocidental. O seu colapso poderia desestabilizar glaciares vizinhos e desencadear um efeito em cadeia que elevaria o nível dos oceanos em mais de três metros.

Para países com extensa linha costeira, como Portugal, os efeitos seriam significativos. A Antártida pode ser um modelo para a gestão ambiental global, mas exige que a comunidade internacional tome decisões antes que os pontos de não retorno sejam ultrapassados.

Continente que ainda guarda segredos

A Antártida continua a surpreender os cientistas. Gelo com mais de 12 milhões de anos foi extraído na Antártida e permitiu estudar o clima antigo da Terra. Microplásticos foram detetados em pinguins da Antártida, revelando que a poluição humana já chegou ao continente mais remoto do Planeta. Um navio naufragado em 1915 foi encontrado ao largo da Antártida, lembrando que este é um dos lugares mais extremos e menos explorados da Terra.

A descoberta do canal submarino sob a Thwaites não é apenas uma notícia científica. É um aviso. O relógio climático da Antártida está a avançar mais depressa do que pensávamos.

Luís Martins; WiN
Imagem Observatório do Clima

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