Burnout afeta mais de 85% dos trabalhadores em Portugal
Mais de 85% dos trabalhadores portugueses apresentam pelo menos um sintoma de burnout, revela relatório sobre saúde nos locais de trabalho.
O documento, elaborado pelos especialistas do Laboratório Português de Ambientes de Trabalho Saudáveis (Labpats), alerta para o risco de “adaptação silenciosa” a níveis elevados de stress e exaustão. Mais de 85% dos trabalhadores portugueses apresentam pelo menos um sintoma de burnout, revela relatório sobre saúde nos locais de trabalho.
O desafio das organizações, sublinham os autores, já não é apenas reconhecer a importância do bem-estar, mas traduzi-lo em “decisões, práticas e condições reais” que devolvam segurança e confiança aos profissionais.
Os números da saúde mental
Os dados pintam um retrato contraditório: 55,5% dos trabalhadores afirmam ser felizes, mas 37,6% dizem sentir solidão. Mais de 85% apresentam pelo menos um sintoma de burnout.
Dos inquiridos, 41% registam simultaneamente quatro sintomas: exaustão física, exaustão emocional, irritabilidade e tristeza. A capacidade de gerir stress é outro sinal de alerta. Mais de metade (56,1%) diz ser incapaz de controlar as coisas importantes na sua vida. Quase metade, 49,5%, sente que as dificuldades se acumularam ao ponto de não conseguir ultrapassá-las.
Um problema que está a agravar-se
Os dados do Labpats mostram uma tendência de agravamento ao longo dos anos. O número de pessoas sem sintomas de burnout diminuiu, enquanto aumentou o de trabalhadores com um sintoma (12,9% em 2021/22, 14,8% em 2023, 17,8% em 2024) e com dois sintomas (16,2%, 13,6%, 28,5%).
O mesmo relatório do Labpats aponta ainda uma ligação crescente entre burnout e assédio laboral. Mais de um em cada quatro trabalhadores referem ter sido vítimas de assédio laboral, com a percentagem a subir de 16,5% em 2021/22 para 20% em 2023 e 27,7% em 2024.
Portugal no contexto europeu
O problema não é exclusivo de Portugal. Segundo o STADA Health Report 2025, realizado em 22 países, 66% dos europeus já sentiram burnout ou sentimentos associados, um aumento face ao recorde anterior de 60% em 2024. As mulheres (71%) são mais afetadas do que os homens (60%), e os europeus com menos de 34 anos lideram com 75%.
Quanto aos portugueses especificamente, 61% já se sentiram esgotados ou em risco de burnout e 36% enfrentam problemas de saúde mental, mas apenas 3% recorrem a terapia.
As preocupações financeiras (32%), o stress no trabalho (26%) e a solidão (10%) são os principais fatores apontados pelos portugueses para os seus problemas de saúde mental.
Estilos de vida em risco
O relatório traça também um quadro preocupante dos estilos de vida dos trabalhadores portugueses. Um em cada cinco fuma. Cerca de 39,5% consomem mais de duas bebidas alcoólicas por dia, 5,8% recorrem a anfetaminas ou estimulantes e mais de 30% tomam medicamentos psicotrópicos.
O que pedem os trabalhadores
Os profissionais inquiridos são claros nas prioridades: melhor organização do trabalho, mais recursos humanos, maior previsibilidade, pausas regulares e tempos de recuperação, e lideranças “mais próximas e preparadas”.
A psicóloga Tânia Gaspar, coordenadora do estudo e fundadora do Labpats, defende que liderar exige presença efetiva. “Para liderar é preciso estar com as pessoas, conhecer as pessoas, acompanhar as pessoas, conseguir ter capacidade de gerir o trabalho.”
Gaspar sublinha ainda a importância da assertividade e da responsabilidade na chefia. “A liderança tem de absorver e de pensar se a sua equipa consegue, tanto em termos de competência como de capacidade para fazer, e transmitir isso às pessoas e aos chefes superiores.”
Trabalhadores de grandes empresas mais protegidos
Os dados mostram que quem trabalha em médias e grandes empresas apresenta mais fatores protetores no âmbito do ambiente de trabalho saudável, o que sugere que a dimensão organizacional influencia diretamente o bem-estar dos profissionais.
Uma agenda para o trabalho digno
Os autores do relatório apontam um conjunto de medidas concretas: comunicação mais transparente, maior justiça e reconhecimento, melhores condições físicas e ergonómicas e integração efetiva da saúde mental nas políticas das organizações.
“Mais do que pedidos avulsos, estas propostas configuram uma agenda consistente para tornar o trabalho mais digno, mais sustentável e mais humano“, sublinham.