Associação portuguesa do Canadá alerta para falta de renovação geracional em Vancouver

O presidente do Centro Cultural Português da Colúmbia Britânica, António Capela, alertou hoje que o futuro das organizações comunitárias portuguesas em Vancouver, Canadá, “dependerá da capacidade de atrair jovens e adaptar as associações às novas exigências tecnológicas e sociais”.

Associação portuguesa do Canadá alerta para falta de renovação geracional em Vancouver

“Nós necessitamos de jovens, necessitamos de sangue mais novo, por muitas razões. Primeiro, porque estamos a entrar num século informático e há necessidade de ter as coisas informatizadas”, afirmou António Capela, sublinhando que muitas associações continuam dependentes de dirigentes envelhecidos e de um núcleo reduzido de voluntários.

Natural de Joanesburgo, na África do Sul, filho de emigrantes oriundos de Santa Maria da Feira, António Capela reside no Canadá há 27 anos e trabalha como analista de negócios numa instituição financeira, acumulando atualmente a presidência do centro cultural português de Vancouver, cargo para o qual foi eleito em 2022, depois de ter integrado a direção como tesoureiro em 2020.

Fundado em 1987, o Portuguese Cultural Centre of BC possui estatuto de entidade de solidariedade registada e conta atualmente com 577 sócios com quotas regularizadas, assumindo-se como uma das principais estruturas da comunidade portuguesa da região de Vancouver, oeste do Canadá.

“A nossa associação prima em manter a cultura e a língua portuguesa, isso é acima de tudo”, acrescentou o dirigente, referindo que o centro continua também a desempenhar um importante papel social junto da população mais idosa da comunidade.

Segundo António Capela, todas as sextas-feiras o espaço abre portas às 09:30 e recebe dezenas de portugueses que ali encontram refeições acessíveis, convívio e atividades recreativas, numa iniciativa que, segundo explicou, tem registado um crescimento significativo nos últimos anos.

“Antigamente era para umas 80 pessoas por sexta-feira, atualmente estamos a atingir os 160. As pessoas vêm, passam ali algum tempo a falar com os amigos, comem uma boa refeição e depois as senhoras vão jogar bingo, os senhores mais idosos vão jogar à sueca ou outros jogos”, descreveu.

O responsável explicou que os almoços incluem sopa, pão, sumo, sobremesa e prato principal por 15 dólares (cerca de 9,90 euros) para associados, considerando que o centro se tornou também um ponto de apoio para muitos idosos cujas famílias enfrentam horários de trabalho intensos.

“Há muita gente cujos filhos não têm tempo, estão a trabalhar o tempo inteiro, e assim pelo menos uma vez por semana juntam-se entre amigos e passam ali uma tarde”, declarou.

Além das atividades semanais, o centro organiza festas mensais, noites de dança e eventos ligados às principais datas comemorativas portuguesas, incluindo o 25 de Abril e festividades sazonais, procurando manter a associação ativa ao longo de todo o ano.

“Se não houver razão nenhuma para festejar, a gente cria uma razão”, declarou António Capela, apontando como exemplo a realização da Festa da Primavera durante o mês de março.

O dirigente destacou igualmente o papel do Rancho Saudade de Portugal, criado na década de 1990 e dedicado à representação das várias regiões portuguesas, incluindo os arquipélagos dos Açores e da Madeira e regiões continentais como Trás-os-Montes.

“Os ranchos vêm, ensaiam na nossa sede, atuam e vão mantendo a cultura e a dança portuguesa”, afirmou.

No entanto, o líder associativo reconheceu que a preservação da língua portuguesa entre os elementos mais novos representa hoje um desafio crescente.

“Infelizmente, uma grande parte dos nossos dançarinos já nem sequer fala português. Há muitos que são filhos de pais portugueses e canadianos, ou mesmo canadianos. Já temos dois ou três dançarinos que são 100% canadianos, casaram-se com portugueses e decidiram juntar-se ao rancho”, lamentou.

António Capela salientou que praticamente toda a estrutura do centro funciona em regime de voluntariado, desde a presidência à vice-presidência e tesouraria, admitindo que o desgaste humano associado à gestão comunitária começa a tornar-se evidente.

“Eu vou entrar agora no meu terceiro mandato e não sei se quererei fazer um quarto, porque isto é muito trabalho. Tenho o meu trabalho normal, ganho dinheiro e pago as contas, e depois tenho o trabalho do centro, que é basicamente outras oito horas por dia, e não se recebe nada”, afirmou.

O presidente considera que o principal problema já não passa pela falta de voluntários ocasionais, mas sim pela ausência de pessoas dispostas a assumir responsabilidades diretivas permanentes.

“Temos bastantes voluntários, pessoas que vêm servir numa festa, cozinhar ou descascar batatas, mas não querem estar envolvidos na direção. E sem uma direção vai ser muito difícil a organização continuar”, alertou.

O responsável destacou ainda o apoio prestado pelo cônsul-geral de Portugal em Vancouver, João Paulo Costa, considerando que o diplomata tem acompanhado de forma próxima o trabalho desenvolvido pela comunidade portuguesa na Colúmbia Britânica.

Num momento em que muitas associações portuguesas no Canadá enfrentam o envelhecimento das direções e a diminuição da participação cívica, António Capela acredita que o futuro do movimento associativo dependerá da capacidade de transformar os centros comunitários em espaços mais abertos às novas gerações, mantendo viva uma identidade portuguesa que continua a marcar presença no mosaico multicultural de Vancouver.

Segundo dados do recenseamento canadiano de 2021, vivem na Colúmbia Britânica mais de 30 mil pessoas de origem portuguesa, concentradas sobretudo na região metropolitana de Vancouver, mantendo uma das comunidades lusodescendentes historicamente mais relevantes da costa oeste do Canadá.

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By Impala News / Lusa

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