Perde 35 mil euros de poupanças em apostas online num só dia e suicida-se
As apostas online destruíram a vida de um jovem português que gastou 35 mil euros num único dia e se suicidou. A namorada lança agora uma petição para regular a publicidade ao jogo em Portugal.
Uma jovem portuguesa de 27 anos perdeu o namorado para o suicídio depois de ele gastar 35 mil euros, 10 mil num crédito e 25 mil retirados da empresa familiar, em plataformas de apostas online num único dia. Sempre soube que o namorado tinha “um bocadinho” de vício no jogo. Chateava-se quando iam ver jogos de futebol e ele e os amigos estavam a apostar.
Quando iam jantar, o telemóvel não lhe saía das mãos. Ele garantia que só gastava “10 ou 15 euros” e que era um entretenimento “com moderação”. Parecia controlado. Não estava.
A verdade surgiu quando o projeto de comprar casa juntos deixou de ser possível. Pouco depois de admitir o que tinha escondido durante anos, suicidou-se. “O meu namorado era uma pessoa que ajudava todos. Eu gostava que isto ajudasse outras pessoas a curarem-se”, disse ao Público.
Apostas online: uma petição nascida da dor
Hoje, a jovem canaliza a dor para a ação. Criou uma petição dirigida ao Presidente da Assembleia da República, a exigir a regulação da publicidade a apostas online em Portugal, nomeadamente nos meios de comunicação e nas redes sociais.
O que a preocupa não é apenas o volume de publicidade, mas a sua natureza. “Distorções cognitivas” usadas nos anúncios exploram a vulnerabilidade de quem já está na espiral do vício. Máximas como “não durmas”, “confia”, “Deus dá a sorte” ou “quando joga um português, ganham logo dois ou três” são, na sua perspetiva, parte do problema. “Preocupo-me com a mensagem benigna que isto passa”, afirmou.
O que acontece ao dinheiro das empresas de apostas online
Em 2025, Portugal arrecadou 353 milhões de euros em receitas fiscais provenientes do jogo online. Só no terceiro trimestre de 2023, os jogos online renderam mais de 215 milhões de euros em receitas. O Estado é, simultaneamente, o regulador e um dos maiores beneficiários do setor.
As maiores operadoras que atuam em Portugal pertencem a grupos internacionais cotados em bolsa. A Betano pertence ao grupo grego Kaizen Gaming. A Betclic é propriedade do grupo francês PMU. A Bwin integra o grupo britânico Entain, cotado na Bolsa de Londres.
O modelo de negócio é matematicamente favorável às empresas em todos os jogos. No longo prazo, a casa ganha sempre. Os lucros são distribuídos pelos acionistas, reinvestidos em publicidade para atrair mais jogadores e parcialmente canalizados para o Estado sob a forma de impostos. Os jogadores, na sua maioria, ficam com menos dinheiro do que aquele com que começaram.
Vício reconhecido pela OMS
O vício em apostas online não é fraqueza de caráter. Trata-se de uma perturbação reconhecida pela Organização Mundial de Saúde, tratada como dependência, à semelhança do álcool e das drogas. Os algoritmos das plataformas de jogo são desenhados para explorar vulnerabilidades neurobiológicas, maximizando o tempo de utilização e os montantes apostados.
Os sinais de alerta incluem perda de controlo sobre o tempo e dinheiro gastos, mudança de prioridades com o jogo a sobrepor-se a tudo o resto e incapacidade de parar mesmo conhecendo as consequências.
Quem reconheça estes sinais em si próprio ou num familiar pode contactar a Linha Vida do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências: 1414.
Perigo vai além do vício
As apostas online representam também outros perigos menos discutidos. As plataformas de jogos online têm sido usadas por predadores para atacar crianças, num fenómeno crescente e preocupante em Portugal.
Regulação insuficiente
O Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos tem um manual de boas práticas que recomenda, entre outras medidas, que não haja publicidade a apostas online na televisão e na rádio entre as 07h00 e as 22h30. Mas um manual de boas práticas não é lei, não é vinculativo e as redes sociais ficam completamente fora do seu alcance.
Em novembro de 2025, a ex-concorrente do Big Brother Márcia Soares alertou nas redes sociais para a morte de um jovem de 25 anos que se suicidou após acumular dívidas em apostas online. “Abrimos as redes sociais e o que mais vemos é publicidade de apostas online e não temos uma única pessoa a dizer o que realmente acontece. É um vício extremamente perigoso”, disse.