Tubarão-branco adulto filmado pela primeira vez debaixo de água no Mediterrâneo
Uma equipa de mergulhadores voluntários filmou pela primeira vez um tubarão-branco adulto debaixo de água no Mediterrâneo. O encontro aconteceu no Estreito da Sicília, a 40 metros de profundidade, durante uma operação de remoção de redes de pesca abandonadas.
Era um encontro que ninguém esperava. Uma equipa liderada pela fundação Healthy Seas recuperava redes de pesca abandonadas de um naufrágio no Estreito da Sicília, entre Itália e a Tunísia, quando o mergulhador técnico Derk Remmers, da organização Ghost Diving, avistou algo que o deixou sem palavras: um tubarão-branco adulto, presumivelmente um macho, a nadar calmamente a cerca de 40 metros de profundidade, acompanhado por uma dúzia de peixes-piloto às riscas.
“Um encontro subaquático com um tubarão ao largo, no Mediterrâneo, é uma loucura” (Derk Remmers)
O vídeo, captado na semana passada e divulgado agora pela fundação Healthy Seas, é considerado a primeira filmagem subaquática de sempre de um tubarão-branco adulto no Mediterrâneo em habitat natural.
O momento do encontro com o tubarão-branco
“Um encontro subaquático com um tubarão ao largo, no Mediterrâneo, é uma loucura”, afirmou Remmers. O animal terá sido atraído pela fauna marinha morta presa nas redes abandonadas, incluindo tartarugas marinhas. A equipa, que incluía parceiros da Society for Documentation of Submerged Sites, continuou a missão de remoção das redes enquanto o tubarão permanecia nas proximidades.
O mergulhador fez questão de contextualizar o encontro. “Para mim, é importante que ninguém se assuste, porque o animal estava em alto-mar, no Mediterrâneo central, e não perto de uma praia onde as pessoas se pudessem sentir ameaçadas.”
Uma espécie à beira da extinção no Mediterrâneo
O que torna este avistamento tão significativo é precisamente a raridade do animal neste mar. No Mediterrâneo, o tubarão-branco foi levado à beira da extinção devido à pesca excessiva e ilegal e à captura acidental em redes de arrasto. Portugal pesca tubarão e raia em excesso, segundo organizações ambientalistas, e a situação é semelhante em toda a bacia mediterrânica.
Embora tenham existido avistamentos ocasionais de tubarões-brancos no Mediterrâneo ao longo dos anos, a dimensão da população é desconhecida. Investigadores que colaboram na missão acrescentaram que o avistamento poderá melhorar a compreensão sobre a distribuição e o comportamento desta espécie na região. Uma convenção recente apertou a malha da proteção a 70 espécies de tubarão e raia, mas a implementação continua a ser o maior desafio.
O perigo das redes fantasma
O encontro aconteceu durante uma operação de combate a um dos maiores problemas dos oceanos: as redes fantasma. Trata-se de equipamento de pesca perdido ou abandonado que continua a capturar peixes, tartarugas, mamíferos marinhos e, como este caso demonstra, também grandes predadores, durante anos após ser abandonado. A Ghost Diving estima que já retirou mais de 600 toneladas de redes fantasma dos oceanos desde a sua fundação.
“Momentos como este lembram-nos quanta vida ainda pode existir nas águas do Mediterrâneo e como é importante protegê-la de ameaças evitáveis, como as redes de pesca abandonadas ou a sobrepesca”, afirmou a diretora da Healthy Seas, Veronika Mikos.
O tubarão-branco: muito mais do que o vilão dos filmes
A imagem do tubarão-branco como predador implacável de humanos está longe de corresponder à realidade. Os ataques existem, mas são raros, e quase sempre resultam de comportamentos de investigação, não de predação deliberada. Casos como o do surfista australiano mortalmente atacado ou o ataque que fez um morto e interditou praias são exceções trágicas, não a regra.
A ciência tem revelado um animal muito mais complexo. O tubarão-branco surpreendeu os cientistas ao demonstrar capacidade de curar as próprias feridas, e os estudos sobre o comportamento social destes animais têm derrubado um a um os mitos sobre o seu isolamento e agressividade. Até as orcas, os únicos predadores naturais do tubarão-branco, foram filmadas a atacar e devorar um destes animais, relembrando que a hierarquia dos oceanos é bem mais complexa do que se imagina.
O vídeo divulgado nesta semana não é apenas um documento histórico para a ciência marinha. É também um lembrete de que o Mediterrâneo, apesar de tudo o que sofreu, ainda guarda vida que vale a pena proteger.