Pelos menos 25 raptos em Cabo Delgado em abril – relatório
Pelo menos 25 pessoas foram raptadas em abril na província moçambicana de Cabo Delgado, num período marcado por um agravamento de ataques de grupos insurgentes que afeta o apoio humanitário no terreno, segundo um relatório das Nações Unidas
De acordo com um relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a que a Lusa teve hoje acesso, “os incidentes de segurança aumentaram 47%” em abril, face a março, passando de 47 para 69 incidentes, incluindo a detonação de dois engenhos explosivos artesanais.
No documento detalha-se que, do total de incidentes, 55 envolveram violência contra civis e 11 confrontos armados, tendo sido também registados mortos, raptos e destruição de bens em diferentes pontos da província, no norte de Moçambique.
Acrescenta-se que “pelo menos oito civis foram mortos e 25 raptados”, com ataques destes grupos terroristas concentrados sobretudo nos distritos de Macomia, Mocímboa da Praia, Ancuabe, Nangade e Meluco.
A província de Cabo Delgado, rica em gás natural, enfrenta desde outubro de 2017 uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, conflito que já provocou mais de 6.600 mortos, segundo organizações internacionais.
Segundo o histórico deste conflito, os raptos permitem a estes grupos de insurgentes reforçar as fileiras, sobretudo com crianças, ou exigir resgates.
Os incidentes registados pelo OCHA em abril incluem “assassínios, raptos, pilhagem de alimentos, destruição de propriedade civil e ataques a aldeias”, evidenciando a persistência da atividade de grupos armados não estatais na região.
Entre os casos reportados, o OCHA destaca um ataque ocorrido em 30 de abril na aldeia de Minhauene, distrito de Ancuabe, onde “elementos armados terão matado dois civis e saqueado material médico de um hospital rural”.
No relatório sublinha-se que “a insegurança permaneceu o principal fator que limita o acesso humanitário” naquela região, afetada igualmente por ciclones e tempestades nos últimos meses, sobretudo nas áreas classificadas com maior severidade de necessidades.
Além da violência, persistem constrangimentos logísticos, com o OCHA a referir que “as condições degradadas das estradas continuaram a restringir o acesso a comunidades remotas e pouco assistidas”.
A organização acrescenta que “inundações localizadas e danos em infraestruturas afetaram temporariamente a circulação, incluindo interrupções na estrada Nacional 1 à entrada da cidade de Pemba”, capital da província de Cabo Delgado, dificultando as operações humanitárias.
Outros obstáculos mencionados no relatório incluem a escassez de combustível e o aumento dos custos operacionais, fatores que “continuaram a afetar a mobilidade do pessoal, a logística humanitária e a capacidade de resposta” na região.
A situação é agravada por problemas de aceitação nas comunidades, com o relatório a indicar que “a desinformação e a desconfiança em torno da resposta ao surto de cólera continuaram a gerar tensões” locais.
No distrito de Quissanga, “alegações que ligavam trabalhadores de saúde à propagação da cólera levaram a confrontos e à expulsão de pessoal médico”, comprometendo as ações de assistência, reconhece-se no relatório.
Apesar de apontar o aumento da violência, no documento indica-se que os níveis de deslocação interna em 2026 são inferiores aos do mesmo período do ano anterior, sugerindo que “as comunidades estão a recorrer cada vez mais a estratégias locais e de curto prazo, em vez de deslocações de longa distância”.
No total, foram reportados quatro incidentes específicos de acesso humanitário em abril, relacionados com insegurança, restrições de movimento e entraves burocráticos, que continuam a atrasar a entrega de ajuda.
No documento conclui-se que “a deterioração simultânea da segurança, das condições físicas de acesso e da aceitação comunitária” está a criar um ambiente cada vez mais desafiante para as organizações humanitárias no norte de Moçambique.
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By Impala News / Lusa