Inferno no céu: O que é o rio atmosférico que está a atravessar Portugal

Portugal está a viver um dos invernos mais negros da sua história recente. Depois da passagem devastadora das tempestades Kristin, Leonardo e Marta, o país enfrenta agora um ‘rio atmosférico’ que não dá tréguas. Com 16 vítimas mortais confirmadas e o colapso de infraestruturas críticas, como a A1 em Coimbra, o cenário é de estado de emergência.

A natureza decidiu testar os limites de resiliência dos portugueses neste fevereiro de 2026. O que começou por ser um “comboio de tempestades” evoluiu para um fenómeno meteorológico persistente e perigoso: um rio atmosférico. Esta “autoestrada de vapor”, que transporta humidade tropical diretamente das Caraíbas para a Península Ibérica, estacionou sobre o território continental, despejando num só dia o equivalente a um mês de chuva.

rio atmosférico
O rio atmosférico funciona como uma “autoestrada de vapor” que transportou humidade tropical diretamente das Caraíbas para a Península Ibérica

O colapso na A1: O momento em que o rio Mondego venceu a Engenharia

O ponto mais crítico desta crise ocorreu nas últimas horas na região de Coimbra. O rebentamento de um dique na margem direita do rio Mondego, na zona de Casais, provocou o impensável: o desabamento de parte do tabuleiro do viaduto da A1. A principal artéria rodoviária do País está cortada entre Coimbra Norte e Coimbra Sul, e as autoridades estimam que a reparação possa demorar semanas.

A força das águas, que atingiu caudais superiores a no Açude de Coimbra, obrigou à evacuação preventiva de mais de 3.000 pessoas nas zonas ribeirinhas de Soure e Montemor-o-Velho.

Kristin, Leonardo e Marta: A cronologia da destruição

Não pode explicar-se a gravidade deste rio atmosférico sem olhar para o que o precedeu. Desde 28 de janeiro que os solos portugueses estão sob ataque:

  1. Tempestade Kristin: Trouxe ventos furiosos que fustigaram o Centro e Norte.
    Tempestade Leonardo: Encharcou definitivamente os solos, impossibilitando a absorção de mais água.
    Tempestade Marta: Trouxe a agitação marítima extrema que dificultou a descarga dos rios no mar.

Este acumulado de eventos criou a “tempestade perfeita”. Com os solos saturados, a chuva do atual rio atmosférico – que já atingiu picos de 300 mm nas zonas serranas – corre diretamente para os leitos dos rios, transformando ribeiros em torrentes imparáveis.

Outros Casos: Quando os céus se abriram em Portugal

Embora o evento de 2026 seja excecional, Portugal já lidou com rios atmosféricos no passado. Em dezembro de 2022 e em outubro de 2023, fenómenos semelhantes causaram inundações severas em Lisboa e no Alto Douro. No entanto, a persistência do atual sistema, aliado ao facto de termos tido três depressões nomeadas em menos de duas semanas, coloca 2026 num patamar de gravidade comparável às grandes cheias de 1967.

Quando volta o sol? A luz ao fundo do túnel

As previsões do IPMA e de especialistas climatológicos apontam para uma mudança radical no padrão atmosférico. A partir desta sexta-feira, 13 de fevereiro, e durante o fim de semana, o rio atmosférico deverá dissipar-se, permitindo a entrada de um anticiclone.

Espera-se uma descida das temperaturas, mas o fim da chuva persistente, o que dará finalmente uma oportunidade às equipas de socorro e de limpeza para avaliarem os danos, que o Governo já estima poderem chegar aos 2,5 mil milhões de euros.

Luís Martins | WiN

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