Intoxicações voluntárias com medicamentos em jovens: O alerta dramático da ULS Santa Maria

Santa Maria revela aumento alarmante de intoxicações voluntárias em jovens. Conheça os dados, o perigo dos desafios das redes sociais e como proteger os adolescentes.

Intoxicações voluntárias com medicamentos em jovens: O alerta dramático da ULS Santa Maria

O aumento de casos de intoxicações em jovens está a colocar as autoridades de saúde em alerta máximo. Na Unidade Local de Saúde (ULS) Santa Maria, em Lisboa, os números não param de crescer, revelando uma realidade preocupante que mistura sofrimento psicológico e o impacto perigoso das redes sociais.

Um retrato em números

A análise dos dados dos últimos seis anos na Urgência Pediátrica do Hospital Santa Maria desenha um cenário de agravamento constante, com uma aceleração acentuada no pós-pandemia:

2019 – 2023: Registo de uma base de casos que já preocupava os especialistas, mas que se mantinha em patamares inferiores aos atuais.
2024: O número de intoxicações voluntárias sobe para 59 casos.
2025: O agravamento consolida-se com 72 casos registados.
Fevereiro de 2026: Em apenas seis anos, o hospital contabiliza um total de 232 casos, sendo que mais de metade (131) ocorreu apenas nos últimos dois anos.

A coordenadora da Urgência Pediátrica, Erica Torres, sublinha que estes números podem ser apenas a “ponta do iceberg” de uma crise de saúde mental muito mais profunda.

O perigo mora no armário de casa e no telemóvel

Ao contrário do que se poderia pensar, a maioria destes jovens não recorre a substâncias ilícitas de difícil acesso. O perigo está, muitas vezes, no armário dos medicamentos da família.

O paracetamol é um dos fármacos mais utilizados. O alerta surge num momento em que as ordens dos Enfermeiros e dos Médicos já tinham avisado para o “desafio do paracetamol” no TikTok, que incentiva a toma de doses elevadas. Segundo os especialistas, os jovens parecem ter noção das doses tóxicas através de conteúdos partilhados online, transformando um medicamento comum numa ferramenta de autossuplício ou de “grito de ajuda”.

Saúde mental: A patologia por trás do gesto

Os dados da ULS Santa Maria revelam que 60% dos jovens afetados já sofriam de perturbações depressivas ou ansiosas. No entanto, o dado mais inquietante aponta para os 30% de jovens que não tinham qualquer patologia diagnosticada antes do episódio de intoxicação.

Este fenómeno reflete uma tendência já observada em outros casos semelhantes em Portugal, onde a falta de acesso a consultas de pedopsiquiatria e o isolamento social têm potenciado comportamentos de risco.

Outros casos e o contexto nacional

O aumento das urgências psiquiátricas não é um caso isolado do Santa Maria. Em 2024, o Centro de Informação Antivenenos (CIAV) do INEM registou mais de 24 mil chamadas, com uma fatia significativa de exposições intencionais em adolescentes. A prevalência de ansiolíticos e antidepressivos nestas ocorrências demonstra que a medicação prescrita a adultos está a ser usada indevidamente pelos mais novos.

Para combater esta tendência, a ULS Santa Maria inaugurou recentemente a Unidade Psiquiátrica Integrada para Adolescentes, tentando dar uma resposta mais estruturada a quem chega à urgência em crise.

Luís Martins; WiN

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