PJ identifica principal visado nas buscas pela tragédia do Elevador da Glória
A Polícia Judiciária realiza esta sexta-feira buscas domiciliárias a responsáveis da Carris e da empresa MAIN. O sócio-gerente Gustavo Pita Soares é identificado pelas autoridades como o principal visado do lado da empresa subcontratada para a manutenção.
A Polícia Judiciária tem em curso esta sexta-feira, 29 de maio, uma operação relacionada com o descarrilamento do elevador da Glória, em Lisboa, que provocou a morte de 16 pessoas em setembro de 2025. A investigação criminal incide sobre suspeitas de homicídio por negligência e violação de regras de segurança. Estão a decorrer buscas para recolha de indícios que visam responsáveis da Carris e da empresa MAIN, que fazia a manutenção do ascensor, não sendo expectável que decorram detenções. No terreno estarão cerca de 30 inspetores, estando a decorrer 10 buscas domiciliárias.
A operação é coordenada pelo procurador Joaquim Morgado, responsável pelo processo crime que decorre no DIAP de Lisboa. Do lado da empresa subcontratada, as autoridades identificam como principal visado o sócio-gerente Gustavo Pita Soares. A Carris confirmou as buscas na sua sede mas escusou-se a indicar mais pormenores sobre o teor das diligências.
O que revelou o relatório preliminar
As conclusões do relatório intercalar do GPIAAF apontam para um cabo de tração diferente ao previsto, e pelo menos parcialmente não conforme com as especificações; roturas progressivas dos pequenos cabos que formam o cabo de tração; e falta de controlo da manutenção. O cabo que unia as duas cabinas do elevador da Glória e que cedeu no seu ponto de fixação da carruagem que descarrilou não respeitava as especificações da Carris, nem estava certificado para uso em transporte de pessoas.
O cabo tinha sido adquirido, em 2022, num processo pouco cuidado do ponto de vista organizacional, não havendo evidências de que alguém na empresa se tenha dado conta de que o mesmo não correspondia com o tipo de construção, graduação do aço e respetiva norma de certificação. No processo de receção e aceitação do cabo, não estava presente ninguém da área de engenharia da Carris, responsável pela especificação dos cabos, pois essa prática tinha sido interrompida em 2020.
O relatório, divulgado a 20 de outubro de 2025, apontou ainda para falsas tarefas de manutenção e de inspeção da responsabilidade da Carris. A investigação ao acidente detetou falhas e omissões na manutenção do ascensor, apontando também a falta de formação dos funcionários e de supervisão dos trabalhos efetuados pela empresa prestadora do serviço.
A tragédia que abalou Portugal
O Elevador da Glória descarrilou na tarde de quarta-feira, 3 de setembro de 2025, pelas 18h04, na Calçada da Glória, em Lisboa. O acidente provocou 16 mortos e mais de duas dezenas de feridos de várias nacionalidades. O Governo decretou um dia de luto nacional e o primeiro-ministro Luís Montenegro prometeu celeridade nas investigações.
Sete anos antes do descarrilamento fatal, o elevador da Glória já tinha descarrilado devido a falta de manutenção, mas como não houve vítimas a notícia passou discreta, tendo a Carris comunicado o mínimo possível sobre o incidente. A 22 de outubro a administração da Carris, liderada por Pedro Bogas, demitiu-se em bloco. As comissões de trabalhadores de Lisboa criticaram o ‘outsourcing’ dos serviços de manutenção como um dos fatores que contribuiu para a tragédia.
O que acontece a seguir
O Ministério Público deverá, nos próximos tempos, retirar conclusões sobre as responsabilidades criminais no caso e decidir se avança com acusações formais contra os responsáveis investigados. Se forem acusados de homicídio por negligência grosseira, os arguidos podem enfrentar penas até cinco anos de prisão. Os crimes de violação de regras de segurança podem chegar aos dez anos.