A herança invisível: O caso único da dadora que transmitiu cancro a quatro pessoas
Conheça a história verídica da dadora que transmitiu cancro da mama a quatro recetores e saiba como os protocolos em Portugal garantem a segurança.
O ato de doar órgãos é, por norma, um gesto de suprema generosidade. Em 2007, uma mulher de 53 anos faleceu devido a um acidente vascular cerebral (AVC). Sem historial conhecido de doenças graves, foi aceite para transplante de órgãos. Rins, pulmões, fígado e coração foram a esperança de uma nova vida para cinco doentes. Na altura, os exames médicos rigorosos não revelaram qualquer sinal de perigo.
Contudo, este caso clínico tornou-se num dos mais trágicos e estudados na medicina moderna. Anos após as intervenções, quatro dos cinco recetores desenvolveram cancro da mama com metástases. O que aconteceu foi uma transmissão silenciosa. A dadora sofria de um cancro da mama microscópico e indetetável no momento da morte. As células cancerígenas viajaram através dos órgãos transplantados e alojaram-se nos novos corpos.
O impacto da imunossupressão no cancro
Para que o corpo não rejeite um novo órgão, os doentes transplantados precisam de tomar medicamentos imunossupressores. Estes fármacos baixam as defesas naturais do organismo para que este aceite o tecido estranho. No caso em questão, esta fragilidade permitiu que as células cancerígenas da dadora proliferassem sem qualquer oposição do sistema imunitário.
O cancro só se manifestou, nalguns casos, seis anos após o transplante. Três dos doentes acabaram por falecer devido à agressividade da doença. O recetor do coração morreu precocemente por causas não relacionadas com este quadro oncológico. Apenas um dos doentes sobreviveu, após a remoção do rim transplantado e a interrupção da medicação, o que permitiu que o seu próprio sistema imunitário recuperasse e eliminasse as células invasoras.
Protocolos de segurança no transplante de órgãos em Portugal
Em Portugal, a segurança de quem recebe um órgão é gerida com o máximo rigor pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST). Os protocolos nacionais estão entre os mais exigentes da Europa. O processo de seleção de um dador envolve várias etapas fundamentais:
– Avaliação exaustiva do historial clínico e familiar do dador de órgãos.
– Realização de análises laboratoriais completas para deteção de vírus e marcadores tumorais.
– Exames de diagnóstico por imagem, como radiografias ao tórax e ecografias abdominais.
– Verificação minuciosa em bases de dados oncológicas para excluir antecedentes de neoplasias.
Apesar de a Ciência ser avançada, o risco zero não existe em Medicina. A probabilidade de transmissão de cancro num transplante é ínfima, situando-se entre os 0,01% e os 0,05%. O benefício de receber um órgão vital supera quase sempre o risco estatístico de uma doença indetetada.