PS lidera intenções de voto no mesmo dia em que os seus dirigentes estão em tribunal
Duas sondagens colocam o PS à frente da AD pela primeira vez desde que o Governo tomou posse. A ironia do calendário: os números são divulgados enquanto dirigentes socialistas foram detidos no âmbito da Operação Imergente.
O PS lidera as intenções de voto em Portugal pela primeira vez em mais de dois anos. A sondagem do ICS-ISCTE/GfK Metris para SIC e Expresso, divulgada ontem, coloca os socialistas com 24% das intenções diretas de voto, contra 21% da AD, confirmando uma tendência de desgaste da coligação governamental.
A mesma sondagem coloca o Chega em terceiro lugar com 17%, recuando 4 pontos. Numa projeção com distribuição dos indecisos, a vantagem do PS sobe para quatro pontos percentuais, com 31% contra 27% da AD. A margem de erro é de +/-3,5%, com um nível de confiança de 95%.
Numa segunda sondagem, realizada pela Aximage para o Diário de Notícias entre 18 e 19 de maio, o PS lidera com 33,4%, quase dez pontos acima da AD (23,2%) e do Chega (23,5%), num sinal claro de desgaste da coligação PSD/CDS após mais de dois anos no Governo.
O timing que ninguém ignora
As sondagens foram divulgadas precisamente quando a Operação Imergente colocou o PS no centro de uma investigação da Polícia Judiciária. Ontem, a PJ realizou buscas na sede nacional do partido, no Largo do Rato, em Lisboa. Esta manhã, quatro detidos, incluindo Duarte Moral, assessor do secretário-geral José Luís Carneiro, e a sua mulher, Rute Reimão, foram presentes ao Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.
O Ministério Público revelou ainda que o PS terá pagado quantias indevidas a dois dos suspeitos, dado que contradiz a posição do partido, que afirma não ser visado pela investigação.
O que explicam as sondagens
Os números representam uma inversão expressiva do cenário político saído das urnas em maio de 2025, quando a AD venceu as legislativas antecipadas. O PS mantém os 24% registados dois meses antes, enquanto a AD perde 4 pontos face a maio, descendo para os 21%.
Os analistas apontam para o desgaste natural do exercício do poder, agravado por dificuldades na habitação, nos serviços públicos e pela perceção de que o Governo não tem conseguido responder às principais preocupações dos portugueses. A descida do Chega, também de 4 pontos, sugere que a volatilidade do eleitorado de protesto está a beneficiar o PS.
O paradoxo socialista
Portugal vive assim um paradoxo político pouco habitual: o partido que lidera as intenções de voto é o mesmo que tem hoje quatro dirigentes e associados a serem interrogados em tribunal por suspeitas de favorecimento e corrupção. A vantagem de três pontos nas intenções diretas de voto confirma uma tendência de queda da AD verificada noutras sondagens recentes.
José Luís Carneiro recusou qualquer leitura política da operação e garantiu a cooperação do partido com as autoridades. Rui Tavares, do Livre, apelou à necessidade de integridade e transparência por parte de quem quer governar.