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Polvos aprendem a usar espelhos para encontrar comida e a ciência ficou rendida

Investigadores da Universidade de Dartmouth descobriram que polvos conseguem aprender a usar espelhos para localizar comida escondida fora do seu campo de visão. É a primeira vez que esta capacidade foi documentada num invertebrado, e a taxa de sucesso foi de 73%.

Polvos aprendem a usar espelhos para encontrar comida e a ciência ficou rendida

Os polvos já eram conhecidos pela sua inteligência fora do comum. Inky, o polvo que em 2016 escapou do aquário nacional da Nova Zelândia por um cano de escoamento e voltou ao oceano, é um dos casos mais famosos. Agora, um estudo publicado na Current Biology pela Universidade de Dartmouth acrescenta uma nova capacidade a esta lista: os polvos conseguem aprender a usar espelhos como ferramenta para encontrar comida que não conseguem ver diretamente.

É a primeira vez que este comportamento foi documentado num invertebrado. Até agora, a utilização de espelhos para processar informação espacial tinha sido observada apenas em vertebrados, como alguns mamíferos e algumas aves.

Como foi feito o estudo

A equipa trabalhou com três polvos da espécie Octopus bimaculoides, conhecidos como polvos de dois pontos da Califórnia, no laboratório de polvos de Dartmouth. O objetivo era perceber se os animais conseguiam aprender a usar um espelho para identificar a localização de uma fonte de alimento fora do seu campo de visão direto.

Numa primeira fase, os polvos foram habituados à presença de um espelho no habitat. Depois, foram treinados para perceber a relação entre o reflexo e a realidade: um caranguejo vivo era colocado num frasco posicionado de forma a que o polvo só o conseguisse ver através do espelho. Para chegar ao caranguejo, o animal tinha de virar 90 graus e contornar um canto.

Na fase de teste, em vez de um caranguejo real, foi usada uma imagem virtual para evitar que o olfato dos polvos interferisse nos resultados. Os animais foram colocados numa caixa aberta com um espelho à frente e uma imagem de caranguejo projetada atrás deles. Para ganhar a recompensa, o polvo tinha de reconhecer onde a imagem estava realmente localizada e mover-se nessa direção em vez de se aproximar do espelho.

Os polvos escolheram o lado correto cerca de 73% das vezes. Alguns chegaram mesmo a escalar os bordos da caixa para chegar ao local da imagem projetada em vez de nadar à volta.

O que isto revela sobre a evolução da inteligência

“Os nossos resultados são os primeiros a demonstrar que invertebrados conseguem usar espelhos para compreender o ambiente e localizar presas”, afirmou a investigadora principal Mary Kieseler, que conduziu o estudo como doutoranda em Dartmouth e é agora investigadora na Universidade de Friburgo, na Suíça.

O professor Peter Tse, neurocientista cognitivo de Dartmouth e co-autor do estudo, colocou o resultado em perspetiva. “Não nascemos a saber usar um espelho, aprendemos a usá-lo. Os polvos também conseguem aprender a usar um espelho para inferir onde estão as coisas no mundo.”

A descoberta tem implicações para a compreensão da evolução da inteligência. “Os polvos estão entre os animais evolutivamente mais distantes dos humanos. O nosso último antepassado comum foi um verme que viveu há 350 a 500 milhões de anos”, explicou Kieseler. “O facto de um organismo tão distante ter desenvolvido de forma independente a capacidade de usar um espelho como ferramenta sugere que os processos cognitivos subjacentes podem ser resultado de evolução convergente: diferentes espécies a desenvolver soluções neurais semelhantes para o mesmo desafio.”

Os polvos têm mapas mentais?

Os investigadores acreditam que esta capacidade pode estar ligada à estratégia de caça dos polvos. “Os polvos são como gatos: aproximam-se da presa sorrateiramente e saltam sobre ela, e querem fazê-lo o mais rapidamente possível para não serem eles próprios caçados”, explicou Tse.

Esta estratégia beneficia de uma compreensão interna do ambiente. “Os caçadores são muito eficazes quando têm um mapa mental do seu território, para saberem onde estão em relação ao ambiente”, acrescentou. “O nosso trabalho sugere que os polvos podem também ter mapas internos.”

A equipa sublinha que mais investigação será necessária para confirmar esta hipótese. Mas o estudo acrescenta mais uma capacidade notável à lista crescente de habilidades que fazem dos polvos um dos animais mais fascinantes do oceano.

Luís Martins; WiN
Imagem Octopus Lab at Dartmouth

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