Crescer no meio de conflitos: o impacto do conflito parental na saúde mental das crianças

A organização Aldeias de Crianças SOS lançou hoje a campanha “Porque isto importa” para alertar para o impacto da exposição ao conflito parental no desenvolvimento das crianças. A evidência científica é clara: crescer no meio de conflitos entre os pais deixa marcas que podem durar toda a vida.

Crescer no meio de conflitos: o impacto do conflito parental na saúde mental das crianças

Quando duas pessoas discutem, as crianças que assistem não são apenas espectadoras. São participantes involuntárias num processo que pode comprometer o seu desenvolvimento emocional, relacional e até físico de forma duradoura. É este o alerta que a organização Aldeias de Crianças SOS lança hoje em Portugal com a campanha “Porque isto importa”.

“Quando uma criança cresce exposta a este tipo de conflito, o seu desenvolvimento emocional, relacional e até físico pode ficar profundamente comprometido, configurando também uma forma de negligência”, refere a organização. A diretora-geral das Aldeias de Crianças SOS, Guida Mendes Bernardo, vai mais longe. “As experiências de adversidade na infância têm efeitos persistentes ao longo da vida. Não agir na infância é permanecer passivo perante um impacto coletivo evitável.”

O que diz a ciência

O conflito interparental tem sido consistentemente associado a resultados negativos no desenvolvimento saudável da criança, em termos de bem-estar físico, psicológico, social e emocional.

O conceito de efeito de contágio descreve como os conflitos no relacionamento conjugal tendem a transbordar para os outros subsistemas familiares, principalmente o parental. Conflitos mal resolvidos entre os cônjuges impactam a relação com os filhos, afetando o seu desenvolvimento emocional.

A evidência acumulada aponta para um conjunto consistente de consequências: maior risco de ansiedade e depressão, dificuldades nas relações interpessoais, problemas de comportamento e comprometimento do desempenho escolar. A separação dos pais pode gerar nas crianças sentimentos de ansiedade, instabilidade, raiva, medo, insegurança e até culpa de abandono, com efeitos que se manifestam em dificuldades escolares, comportamentos desafiadores e prejuízos no desenvolvimento emocional.

Não é preciso haver divórcio

Um aspeto frequentemente subvalorizado é que o conflito parental não exige separação para causar dano. Famílias intactas onde os pais coexistem em permanente tensão ou hostilidade expõem os filhos ao mesmo tipo de stress crónico. A questão não é se os pais estão juntos ou separados, é a qualidade do ambiente emocional que criam.

A Aldeias de Crianças SOS sublinha que a exposição ao conflito parental é “um tema pouco presente no debate público”, apesar dos seus efeitos documentados. A organização defende que proteger as crianças vai muito além de evitar a violência física: inclui garantir um ambiente relacional seguro, previsível e afetivo.

O impacto no cérebro em desenvolvimento

O sistema nervoso de uma criança está em formação nos primeiros anos de vida. O stress crónico provocado pela exposição a conflitos repetidos ativa de forma continuada o eixo do cortisol, a hormona do stress, com consequências que vão do sono à memória, da atenção ao sistema imunitário.

A ampla gama de resultados de saúde mental associados ao conflito parental inclui maior risco de ansiedade, depressão, dificuldades relacionais e problemas de saúde ao longo da vida. Estes não são efeitos passageiros: estudos longitudinais mostram que crianças expostas a conflito parental crónico têm maior probabilidade de replicar padrões relacionais disfuncionais na vida adulta.

Quando o conflito se torna negligência emocional

A Aldeias de Crianças SOS é explícita: expor uma criança ao conflito parental é uma forma de negligência emocional. “Não proteger uma criança do conflito parental representa, por um lado, negligenciar a necessidade de lhe garantir esse direito e, por outro, expô-la a modelos relacionais abusivos que vão impactar todas as formas que a criança terá de se relacionar no futuro”, afirma Guida Mendes Bernardo.

Esta é uma distinção importante. A negligência emocional é, de todas as formas de mau-trato infantil, a mais difícil de identificar e a que mais tende a ser desvalorizada. Não deixa marcas visíveis. Não chega às urgências. Não gera denúncias imediatas. Mas os seus efeitos são tão reais e tão duradouros como os de formas mais óbvias de violência.

Quando o conflito parental ultrapassa a tensão quotidiana e entra em território de hostilidade crónica, manipulação ou instrumentalização da criança, os danos aprofundam-se. A psicóloga forense Elsa Henriques analisou em detalhe o impacto nos mais jovens de ambientes familiares abusivos, em entrevista ao Portal de Notícias, identificando padrões que surgem repetidamente nas crianças expostas a dinâmicas relacionais destrutivas: sentimentos de culpa, confusão emocional, dificuldades de vinculação e visão comprometida de si próprias que pode persistir até à vida adulta.

Quando um dos pais usa a criança contra o outro

Um dos cenários mais destrutivos, e igualmente pouco discutido, é o da instrumentalização da criança em contexto de separação conflituosa. Quando um progenitor usa a criança como mensageira, confidente ou arma contra o outro, o dano é duplo: a criança perde a segurança do espaço familiar e passa a carregar responsabilidades emocionais que não lhe pertencem.

Os efeitos documentados incluem ansiedade de separação, culpa exacerbada, lealdades divididas e incapacidade progressiva de confiar nos adultos de referência. Em casos extremos, a criança pode ser levada a construir narrativas falsas sobre um dos progenitores, com consequências devastadoras para todas as partes e particularmente para ela própria.

Portugal e a proteção da infância

Em Portugal, o debate sobre a proteção da infância tem vindo a ganhar visibilidade crescente. O Presidente da República realçou recentemente a pobreza infantil e apelou à proteção da infância, num sinal de que o tema sobe na agenda política. A primeira conferência sobre nutrição infantil desafiou a ação de pais e educadores, mostrando que a atenção ao desenvolvimento saudável das crianças vai além da alimentação.

Mas há ainda muito caminho a percorrer. Um sindicato alertou para a subida da mortalidade infantil nas regiões com mais falta de médicos, e os desafios da proteção da infância no digital continuam sem resposta clara: a União Europeia não prolongou as regras de deteção de abuso sexual infantil online, numa decisão que gerou preocupação entre organizações de proteção de menores.

O que podem fazer os pais

A mensagem da Aldeias de Crianças SOS não é de culpabilização: é de consciencialização. Os conflitos entre adultos são inevitáveis. O que está ao alcance de cada pai e cada mãe é a forma como os gerem e, sobretudo, onde e como os expressam.

Alguns princípios orientadores reconhecidos pela psicologia infantil: nunca envolver a criança como árbitro ou mensageira entre os pais; não fazer comentários negativos sobre o outro progenitor na presença dos filhos; garantir que a criança sabe que o conflito não é culpa dela; manter rotinas estáveis mesmo em períodos de tensão familiar; e procurar apoio psicológico quando o conflito se torna crónico.

A escola e a comunidade têm também um papel. Em França, cães e gatos já fazem parte das salas de aula como ferramenta de empatia, numa aposta no desenvolvimento emocional das crianças desde cedo. Em Portugal, essa sensibilidade ainda está a construir-se.

“Proteger as crianças é uma responsabilidade de todos”, conclui Guida Mendes Bernardo. A campanha “Porque isto importa” pretende precisamente isso: colocar esta responsabilidade na agenda pública, onde há muito devia estar.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

Adicione a Impala como fonte preferida google share