Os Neandertais podiam já ter o ‘hardware’ para falar, revela ADN partilhado com os humanos
A capacidade de falar pode ser muito mais antiga do que a própria espécie humana. Um estudo da Universidade de Iowa descobriu que pequenas regiões do ADN, partilhadas com os Neandertais, têm um peso desproporcional na capacidade de linguagem, e podiam até estar mais desenvolvidas neles do que em nós.
A capacidade de falar parece uma das coisas mais distintamente humanas que existem. Mas a base genética para isso pode ser mais antiga do que a própria espécie humana. Um estudo publicado na revista científica Science Advances, conduzido por investigadores da Universidade de Iowa, descobriu que uma fração minúscula do ADN, presente também nos Neandertais, tem uma influência desproporcional na capacidade de linguagem.
Menos de 0,1% do genoma com um peso descomunal
As regiões identificadas chamam-se HAQERs, sigla em inglês para “regiões do ancestral humano rapidamente evoluídas”. Representam menos de 0,1% do genoma, mas têm um impacto cerca de 200 vezes maior na capacidade de linguagem do que qualquer outra região genética. Em termos práticos, um único marcador genético nestas regiões tem, em média, 188 vezes mais peso preditivo para a linguagem do que um marcador retirado ao acaso de qualquer outra parte do genoma.
“O que estamos a ver é como uma parte muito pequena do genoma pode ter uma influência descomunal, não só em quem fomos como espécie, mas em quem somos como indivíduos”, explicou Jacob Michaelson, professor de psiquiatria na Universidade de Iowa e autor sénior do estudo.
Interruptores de volume, não genes
Uma das partes mais interessantes da descoberta é que estas regiões não são genes propriamente ditos. “Não estamos a falar de genes. São regiões regulatórias que funcionam como o interruptor de volume dos genes”, explica Michaelson. Estas regiões funcionam como instruções para construir o “hardware” do cérebro, enquanto a linguagem em si representa o “software”.
A descoberta liga-se também a investigação anterior sobre o gene FOXP2, que durante anos foi associado a perturbações da linguagem. “Se as HAQERs são como interruptores de volume que podem ser ajustados, o FOXP2 é uma das mãos que ajusta esses interruptores”, acrescenta o investigador.
Os Neandertais podiam ter mais destas regiões do que nós
A descoberta mais surpreendente do estudo é que estas sequências genéticas já existiam antes da separação entre humanos modernos e Neandertais. A análise revelou que estes “interruptores genéticos” já estavam presentes nos Neandertais, e podiam até estar ligeiramente mais pronunciados do que nos humanos modernos.
Para os investigadores, esta foi uma descoberta especialmente significativa, porque sugere que as HAQERs são inovações biológicas antigas ligadas à linguagem, apesar da probabilidade de os Neandertais diferirem substancialmente dos humanos modernos em muitos aspetos da cognição.
“Esta fração do genoma manteve-se relativamente constante, mesmo quando outros aspetos foram aumentando cada vez mais para tornar os humanos modernos cada vez mais inteligentes”, afirma Michaelson. “Podemos dizer que os humanos já tinham, pelo menos, o ‘hardware’ para a linguagem mais cedo do que se pensava anteriormente.”
O que isto significa
Michaelson sublinha que a evidência arqueológica já mostra que os Neandertais tinham cultura, organização social e comportamentos complexos. A nova descoberta acrescenta uma peça biológica a esse retrato: o equipamento neural que torna a linguagem possível pode ter raízes muito mais profundas na árvore evolutiva humana do que se imaginava.
A equipa de investigação usou amostras recolhidas há anos, no âmbito de um estudo sobre capacidades de linguagem em centenas de crianças no Iowa, e cruzou-as com análises genéticas de genomas antigos de Neandertais e Denisovanos, outro grupo humano extinto. Os resultados mostraram que estes dois grupos extintos transportavam ainda mais variantes destas regiões ligadas à linguagem do que os humanos modernos.
Os investigadores pretendem agora distinguir entre efeitos genéticos diretos e o que chamam de “criação genética”, a forma como os genes dos pais moldam o ambiente de uma criança. O objetivo a longo prazo é perceber quais as crianças que podem precisar de apoio ambiental, rastreio biológico, ou ambos, para o desenvolvimento da linguagem.
A linguagem pode parecer o traço que mais nos separa de todos os outros seres. Esta descoberta sugere que, pelo menos em parte, é também o que mais nos liga a eles.