A ciência explica por que nos apaixonamos por animais que nunca vimos na vida real
Já chorou com um vídeo de um animal que nunca viu na vida? Já sentiu pena de um animal num filme como não sente de uma personagem humana? Não é fraqueza, é biologia. A ciência explica o que se passa no cérebro quando um animal nos toca.
Há algo no encontro entre humanos e animais que escapa à lógica. Pessoas que nunca tiveram um animal de estimação ficam destruídas quando morrem os do vizinho. Adultos choram com vídeos de polvos a brincar. Crianças desenvolvem laços intensos com personagens animais em filmes. A ciência tem uma explicação para este fenómeno e é mais profunda do que se poderia pensar.
Ligação emocional com animais: o que se passa no cérebro
Um estudo publicado em 2025 na revista Animals, conduzido por investigadores da Universidade Normal de Sichuan, na China, mapeou pela primeira vez os mecanismos neurais específicos que ocorrem quando os humanos processam informação relacionada com animais de companhia. Os resultados foram claros: os animais de estimação ativam zonas do cérebro associadas à recompensa e ao apego, incluindo o lobo frontal e a amígdala, de forma semelhante ao que acontece com as relações humanas próximas.
Mais do que isso: a presença de animais regula os níveis de oxitocina, a hormona do vínculo afetivo, e de cortisol, a hormona do stress. Reduz a pressão arterial. Aumenta a produção de serotonina e dopamina. Em termos bioquímicos, estar perto de um animal é, literalmente, sentir-se melhor.
Uma predisposição evolutiva
A explicação para a intensidade desta ligação é profunda. Os humanos desenvolveram, ao longo da evolução, uma capacidade particular de ler as expressões emocionais de outros animais, inicialmente como mecanismo de sobrevivência, para detetar predadores ou identificar aliados. Com o tempo, essa capacidade transformou-se numa empatia interespécies que hoje se manifesta de formas muito diversas.
Tendemos a desenvolver maior empatia por animais que se assemelham a nós, os que têm olhos virados para a frente, expressões faciais lidas como emoções, comportamentos que interpretamos como cuidado ou brincadeira. É por isso que os cãezinhos de olhos grandes nos desarmam mais facilmente do que um réptil.
Por que choramos com animais que nunca vimos
O fenómeno de nos apaixonarmos por animais que nunca existiram ou que nunca encontrámos faz parte do mesmo mecanismo. Quando vemos um animal em sofrimento, real ou fictício, o cérebro não distingue. A amígdala responde ao estímulo emocional independentemente de ser real ou imaginado. E como estamos biologicamente preparados para responder à vulnerabilidade, a vulnerabilidade de um animal ativa as mesmas respostas que a de um bebé ou de uma criança.
Há também uma dimensão mais íntima. Os animais representam, muitas vezes, uma forma de relação sem julgamento, sem expectativas, sem a complexidade das dinâmicas humanas. Procuramos neles o que por vezes falta nas relações com outros humanos: presença incondicional, afeto simples, calma.
Quando a ligação é benéfica
A investigação é consistente: a relação com animais tem benefícios documentados na saúde mental. Reduz a ansiedade e a depressão, atenua o stress pós-traumático, melhora a qualidade de vida em pessoas com doenças crónicas e facilita a socialização em crianças com dificuldades relacionais. Os animais de suporte emocional, diferentes dos de serviço, são reconhecidos pela medicina como complemento terapêutico válido para um conjunto alargado de condições psicológicas.
A ligação que sentimos por animais que nunca vimos não é irracional. É um dos traços mais antigos e mais humanos que temos.