Tony Carreira A filha e o medo de perder os pais

Entre lágrimas, memórias e uma força que continua a surpreender, o cantor abriu o coração como nunca antes. A perda irreparável de Sara continua a marcar cada dia da sua vida e a idade avançada dos pais também o inquieta: “A qualquer momento, um dos dois pode partir.”

Tony Carreira A filha e o medo de perder os pais

A história começa onde tudo ainda dói. Na saudade que não dá tréguas. Tony Carreira não foge, tal como nunca fugiu, ao tema mais difícil da sua vida: a morte da filha, Sara Carreira. E foi de coração aberto que voltou a falar dela, em entrevista a Luís Osório, no programa Vencidos, da Antena 1. “Eu precisava de arranjar formas de viver sem ela”, confessou, com a voz firme, mas carregada de emoção. “E uma das formas que encontrei foi falar da minha filha todos os dias. Eu falo da minha filha todos os dias… mas não é uma vez. Falo dela muitas vezes, e com alegria.”

Recorde-se que Sara Carreira morreu a 5 de dezembro de 2020, aos 21 anos, na sequência de um acidente de viação na A1, na zona de Santarém. E desde então o pai tem feito um enorme esforço para manter viva a sua memória. “Eu quero que as pessoas me oiçam falar dela. Eu preciso de falar dela”, reforçou, acrescentando: “Era impossível estar aqui sem falar dela.” E depois há os gestos que dizem tanto quanto as palavras. As cadelas Roxy e Molly, que eram inseparáveis de Sara, vivem agora com o cantor e os três estão sempre juntos. “Fiquei com as duas cadelinhas dela… para mim, são minhas netas. São filhas da minha filha.”

Apesar da calma e do carinho que transmite ao falar da filha, o caminho até aqui não foi simples. Nem linear. “Na partida da minha filha, eu tinha duas possibilidades de andar cá”, revelou. “Uma vez que não me passava pela cabeça acabar com a minha vida – graças a Deus que não me passou – eu tinha duas opções: ou o caminho de ficar uma pessoa completamente amarga, completamente azeda, completamente revoltada contra tudo… e podia. E tinha, entre aspas, esse direito. Ou então cuidar de mim. E arranjar ferramentas para poder, enquanto cá andar, andar minimamente bem.”

Foi essa a escolha. Não porque seja fácil. Mas porque era a única possível: “Ninguém tem culpa daquilo que me aconteceu… só o universo. Portanto, enquanto cá andar, vou tentar andar bem.”

O impacto desta perda foi profundo e transformador. Mudou a forma como Tony olha para a vida e para o tempo. “Tornou-me uma pessoa muito mais humilde”, admitiu. “Muito mais consciente de uma evidência: a nossa vida está presa por nada. Por um fio de pesca… que é a coisa mais transparente que existe.” E foi nesse confronto brutal com a fragilidade da vida que surgiu uma necessidade antiga, mas esquecida: a fé. “Eu já não tinha grande relação com a fé há muitos anos”, contou. “E, com a partida da minha filha, no desespero, precisei de respostas.” Respostas essas que não encontrou sozinho. “Houve uma pessoa muito importante para mim neste processo, o Bispo Américo Aguiar.” Conheceram-se na Basílica da Estrela, em Lisboa, num dia que Tony não hesita em descrever como “o pior dia da minha vida”, o dia do adeus a Sara. Mas foi nesse momento que algo mudou. “Hoje estou mais próximo da fé”, admite. “Não diria tanto da religião… mas de uma ideia de transcendência. Tenho esperança de que possa existir mais qualquer coisa para lá disto.”

 

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Texto: Andreia Valente; Fotos: Impala

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