Entre Brindes Renato Seabra: redenção possível depois de um crime irreparável?
Quinze anos depois da morte de Carlos Castro, os pormenores da noite continuam a suscitar curiosidade do público, que continua sem compreender as motivações do ex-manequim.
Há poucas histórias que continuam a intrigar tanto os portugueses como a de Renato Seabra e Carlos Castro. Continua a ser difícil, ou quase impossível, compreender o que leva alguém a cometer um ato de violência extrema como aquele. Sempre que o tema volta à conversa, os comentários surgem inevitavelmente polarizados. Uns defendem Renato, garantindo que Carlos era uma má pessoa. Outros defendem Carlos, vendo em Renato um assassino a sangue-frio, movido por ambição e oportunismo. Entre extremos, perde-se muitas vezes a capacidade de olhar para esta história com a complexidade que ela exige.
Não conheci nenhum dos dois. Tinha apenas 14 anos quando, como grande parte do país, vi a notícia abrir todos os telejornais. Na altura, longe de imaginar que um dia me tornaria jornalista e cronista, fiquei profundamente marcado por aquele caso. Já lia as crónicas de Carlos Castro e acompanhei Renato no concurso de manequins da SIC, e queria perceber o que poderia levar um jovem a destruir a sua vida, e a de outro, de forma tão brutal.
Essa inquietação nunca desapareceu. Talvez por isso, anos mais tarde, tenha passado meses a tentar, sem sucesso, entrevistar Renato na prisão, em Nova Iorque. Não por sensacionalismo, mas pela necessidade de tentar compreender o incompreensível.
Do pouco que chega cá fora, passa a ideia de que Renato é hoje um homem diferente, e ouvir a sua versão seria essencial. Dedica-se ao sacerdócio dentro da prisão, cumpre regras, é visto como um recluso exemplar, apesar de já ter enfrentado alguns surtos mentais. Confesso que sinto pena de Renato. Tal como sinto uma profunda tristeza pela forma violenta e abrupta como a vida de Carlos terminou.
Renato cometeu um erro irreparável e terá de cumprir as consequências desse ato, isso é inegável. Mas acredito também que a justiça deve permitir espaço para redenção. Nada apagará o crime que cometeu, mas pagar para sempre é algo que não desejo a ninguém. Porque há histórias que não se resumem a vilões e vítimas, mas que nos obrigam a olhar para a fragilidade humana. E esta é, sem dúvida, uma delas.
Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Impala