Carolina Deslandes “Fui expulsa por bater em homens que me apalparam o rabo”

A cantora assume que sempre teve “pelo na venta” e que era implacável com o assédio que sofria, principalmente em discotecas. Noutra das vezes, aos 18 anos, denunciou um cliente do restaurante onde trabalhava e ainda foi acusada de se vestir de forma provocadora.

Carolina Deslandes “Fui expulsa por bater em homens que me apalparam o rabo”

Carolina Deslandes tem sido uma voz ativa contra o assédio e, durante uma conversa ao lado do amigo de infância Martim Sousa Tavares no podcast de Inês Lopes Gonçalves ‘Não Mandas em Mim’, recordou alguns episódios pelos quais passou ainda na adolescência. Um dos que mais a marcou aconteceu aos 18 anos, enquanto estava a trabalhar num restaurante, e sentiu-se completamente desvalorizada depois de ter denunciado. 

“Quando fiz 18 anos, não gostei da universidade, quis sair e a minha mãe disse que eu só saía se tivesse um trabalho. Então entreguei não sei quantos currículos e fui trabalhar para um restaurante. Lá, levei um apalpão de um cliente e o gerente disse: ‘Quem te mandou vir de leggings?’. E lembro-me de toda a gente concordar com aquilo, do género: ‘Sim, isso não é forma de vir trabalhar’”, contou.

Na noite, aconteceram-lhe situações semelhantes. “Eu fui expulsa de quase todas as discotecas onde fui por bater em homens que me apalparam o rabo”, partilhou. “Às vezes, tento explicar isto às gerações mais novas que, na altura, se tu batesses num homem que te tinha apalpado o rabo, tu estavas a exagerar, eu não estou a mentir”.

Numa outra ocasião, colocaram-lhe droga na bebida. “Eu fui ‘minada’ no Garage [discoteca de Lisboa]. Quando estás a beber álcool, tens aquela coisa de: ‘ui, estás a ficar…’, mas como eu não estava a beber álcool – eu não bebia álcool – comecei-me a sentir estranha e sabia que era impossível ser de Coca-Cola. Fui direita à casa de banho, lembro-me de me sentar, ligar à minha mãe e dizer: ‘Alguém pôs-me alguma coisa na bebida e preciso que alguém me venha buscar’. Lembro-me perfeitamente do meu padrasto estar no fim da rua e eu não me conseguir mexer para ir ter com ele”.

Ainda assim, a artista, hoje com 34 anos, sublinha que viveu uma juventude muito feliz e livre, marcada por ter “muito pelo na venta”. “Nós tínhamos muito poucas regras. Fui para o [festival] Sudoeste com 16 anos pela primeira vez com o meu namorado de 24 anos”, atirou, entre gargalhadas.

“Tinha que perder peso e vestir-me de certa maneira”

Carolina abordou ainda outro tema que a marcou, principalmente depois do nascimento do primeiro filho, em 2016, e tenta deixar alertas para evitar que outras pessoas passem pelo mesmo: a pressão com a imagem. “Eu hoje em dia olho para fotografias minhas, principalmente na altura em que tive o Santiago, e vejo que andei uns anos da minha vida mascarada”, começou por explicar. “Mascarada de mãe. Ou seja, eu sempre fui meio alternativa, desde que me lembro, e às tantas deixei que me convencessem que como eu já tinha filhos, que já estava noutra idade, então tinha que me vestir de uma certa maneira”. E vai mais longe: “Começou a ser recorrente a questão de eu perder peso, eu tinha de perder peso, se queria cantar música pop, tinha que perder peso, e se eu queria ter filhos e ser figura pública tinha que perder peso e vestir-se de uma certa maneira”. 

E recordou um momento específico em que a sua forma de vestir foi condenada pelas pessoas ao seu redor. “Eu lembro-me de ter ido a um programa da manhã e estar toda a gente muito indignada porque eu ia de camisola de capuz. Durante um breve período da minha vida, eu convenci-me… Se alguma coisa não corresse bem era porque: ‘Tens mesmo que cuidar da tua imagem’. E senti uma responsabilidade de andar mascarada, uma obsessão com o físico e deixei que isso ocupasse demasiado espaço na minha vida. Por isso é que eu bato tanto nessa tecla e falo tanto sobre isso para que alguém mais novo passe por um post e pense: ‘Deixa-me lá sair desta pressão’. Porque há muito esta ideia de que a mulher bem-sucedida tem que também que ser uma mulher que desperta desejo físico, que tenha sex appeal, que tenha qualquer coisa…”, lamenta.

Texto: Vânia Nunes; Fotos: Arquivo Impala e D.R.
 

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