Entre Brindes Adriana Birolli: A dificuldade de dizer “não” e a peça que nos obriga a pensar
Entre jantares por obrigação, favores inconvenientes e planos que não nos apetecem, há um problema comum a quase todos: a dificuldade em dizer “não”.
Entrevistei Adriana Birolli no ano passado. Já a conhecia de novelas de enorme sucesso da TV Globo, como Viver a Vida ou Fina Estampa, mas foi nessa conversa que tive oportunidade de conhecer muito mais do que a atriz que acompanhámos durante anos no pequeno ecrã.
Recebeu-me em casa, falou sobre carreira, rotina, ambições e mostrou um lado muito mais próximo e genuíno. Mas não foi para integrar o elenco de uma novela que atravessou o Atlântico rumo a Portugal. O objetivo era outro. Trazer ao nosso país uma peça que foi um enorme sucesso no Brasil. Uma comédia sobre algo surpreendentemente universal: a dificuldade que muitas pessoas têm em dizer “não”.
E confesso que esta ideia me ficou imediatamente na cabeça. Porque, no fundo, quantos de nós têm verdadeira dificuldade em recusar algo que não querem fazer? Quantas vezes inventamos desculpas elaboradas para evitar um jantar, uma festa, um encontro ou simplesmente uma situação que não nos apetece viver? E quantas outras aceitamos coisas que não queremos apenas para corresponder às expectativas dos outros?
Dizer “não” parece simples. Mas raramente é. Talvez porque, desde cedo, nos ensinaram a agradar, a ceder, a evitar desiludir. E, sem darmos por isso, acabamos muitas vezes por nos anular para proteger o conforto alheio.
A peça regressou agora a Portugal e, por isso, foi com enorme satisfação que recebi o convite de Diogo Camargos, autor e encenador, para assistir ao espetáculo. E a verdade é que valeu totalmente a pena. Além de provocar gargalhadas praticamente do início ao fim, obriga-nos constantemente a olhar para pequenas situações do quotidiano nas quais todos, inevitavelmente, nos revemos. Jantares indesejados, aniversários por obrigação, encontros desconfortáveis, favores que não queremos fazer.
Em vários momentos, a sensação é clara de que não é apenas Adriana que está em palco. Somos todos nós. E isto leva-me, inevitavelmente, ao seu desempenho. Adriana Birolli tem uma energia praticamente inesgotável, uma presença magnética e uma capacidade rara de alternar entre humor e emoção em segundos. Sustentar um monólogo durante mais de uma hora, mantendo o público completamente preso, não é tarefa fácil. E fazê-lo com esta leveza e naturalidade é mérito de quem domina verdadeiramente o palco.
Por isso, só posso deixar um conselho: vejam esta peça. Porque nem todas as comédias nos fazem refletir sobre nós próprios, mas quando isso acontece, saímos sempre um pouco diferentes de como entrámos.
Texto: Luís Duarte Sousa; Foto: Impala