Rúben Pacheco Correia “Sofri de bullying na escola e fugia para a biblioteca”

Ainda está a caminho dos 30 anos, mas já foi agraciado por dois Presidentesda República e recebido por um Papa no Vaticano. Quem o vê agora, seguro e bem-falante, não imagina o que sofreu na escola quando era uma criança obesa. Naturalde Rabo de Peixe, escreveu o primeiro livro aos dez anos e tem agora a sua grande prova de fogo, dividindo com Luciana Abreu a condução do programa das manhãs da CMTV.

Há poucas semanas, assumiste um dos maiores desafios da tua carreira: acordar Portugal nas manhãs da CMTV. Aos 29 anos, sentes o peso dessa responsabilidade?

Sinto, claro. É uma enorme responsabilidade, mas também um privilégio. A televisão é um desafio completamente diferente da escrita. Obriga-nos a estar permanentemente atentos, preparados e disponíveis. Estou muito feliz por esta oportunidade e por sentir que confiam em mim para um projeto desta dimensão.

Apesar dessa exposição diária, já disseste várias vezes que sempre foste um miúdo tímido. É curioso, porque hoje as pessoas veem-te precisamente no lugar oposto: à frente das câmaras.

É verdade. Sempre fui muito tímido. Acho que isso tem muito a ver com a forma como cresci. A minha mãe foi mãe muito nova e eu fui o primeiro neto, o primeiro bisneto e o primeiro sobrinho da família. Cresci praticamente rodeado de adultos. Não tinha primos da minha idade, nem muitas crianças com quem brincar. Vivi sempre muito dentro daquele universo familiar, na casa da minha avó, em Rabo de Peixe, nos Açores. Só quando entrei para a escola comecei verdadeiramente a conviver com outras crianças.

Isso tornou-te uma criança mais reservada?

Sem dúvida. Lembro-me de o professor Mota Amaral dizer, numa apresentação de um dos meus livros, que eu era um “falso envergonhado”. É uma expressão de que nunca mais me esqueci. Talvez tivesse razão. Sempre fui reservado, mas, quando me sentia confortável, conseguia abrir-me completamente.

Havia outra realidade que também te marcava nessa altura: o excesso de peso.

Sim, sempre fui um miúdo gordo. Em casa isso nunca foi um problema [pausa]. Pelo contrário, era muito acarinhado. A minha bisavó Rosa, por exemplo, alimentava-me com pão e açúcar e aquilo era uma demonstração de amor. Na família, nunca senti que fosse diferente.

Mas a escola muda tudo.

Muda. Foi aí que apareceu a vergonha. As crianças podem ser muito cruéis e comecei a olhar para o meu corpo de outra forma. Passei a sentir inseguranças que nunca tinha sentido dentro de casa. Hoje percebo que essa fase também ajudou a construir a pessoa que sou.

Cresceste rodeado de mulheres. A tua mãe, a tua avó, as tuas tias, a tua bisavó… Foram elas que te moldaram?

Sem dúvida. As minhas grandes referências são femininas. Cresci muito dentro desse universo familiar. O meu avô materno morreu muitos anos antes de eu nascer e, por isso, a minha infância foi passada entre a minha mãe, a minha avó, as minhas tias e a minha bisavó. Foram elas que me educaram e me deram os valores com que cresci.

 

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Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Tito Calado/Impala/Redes sociais

Notícia www.novagente.pt

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