Paulo Salvador “Salvei muitos restaurantes”
Dois meses e meio depois de ter batido com a porta do Conta Lá, por falta de pagamentos, diz que a reforma não o seduz. Durante nove anos, foi o autor de Mesa Nacional, na TVI, onde salvou restaurantes da falência e deu visibilidade a outros. Contar histórias continua a ser o objetivo deste angolano, que não esquece as suas origens.
Vamos começar pela atualidade. Soube-se recentemente que abandonaste o projeto multiplataforma Conta Lá, alegadamente por falta de pagamentos. Isto corresponde à verdade?
Sim, corresponde. Fui um de vários profissionais que saíram por falta de pagamentos. Chega uma altura em que deixamos de conseguir adiar uma situação que se agrava de mês para mês. Vamos tentando compreender, ajudando, acreditando que as dificuldades são passageiras, mas há um limite. E nós, muitas vezes, esquecemo-nos de respeitar esse limite. Achei que tinha chegado o momento de sair. Ainda tentei uma solução cordial, mas não foi possível. Não me restou outra alternativa senão recorrer aos tribunais para tentar recuperar aquilo que me é devido pelo meu trabalho.
Quanto tempo aguentaste?
Estive lá praticamente desde o início. Entrei em maio e saí em abril do ano seguinte. Foram cerca de dez meses de trabalho.
Durante esse período foste recebendo?
Recebi os primeiros meses, mas depois os pagamentos deixaram de acontecer. Estamos a falar de cerca de meio ano sem receber. Quando o canal começou finalmente a consolidar-se e a emitir regularmente, eu já estava a trabalhar sem qualquer remuneração.
Mesmo assim continuaste. Porquê?
Porque acreditei no projeto. Achei que aquelas dificuldades faziam parte do crescimento e que tudo acabaria por se resolver. Fui solidário. Pensei que valia a pena esperar mais um pouco. Mas um mês transformou-se em dois, depois em três, em quatro… e houve um momento em que percebi que estava apenas a prolongar um problema que não tinha solução.
O que é que o Sérgio Figueiredo [CEO do canal e antigo diretor de Informação da TVI] te foi dizendo?
[pausa] Fui dando sinais de que a situação tinha de ser resolvida. Expliquei que havia um limite para aquilo que podia suportar. Quando percebi que nada mudava, comuniquei que não podia continuar. A resposta foi o silêncio. E esse silêncio acabou por dizer tudo.
Custou-te tomar essa decisão?
Muito. Ninguém entra num projeto para sair. Entramos sempre com vontade de construir. Mas também temos responsabilidades, contas para pagar e uma profissão que merece ser respeitada. Não podemos normalizar situações destas.
O que é que te levou a aceitar o convite para o Conta Lá?
Era um sonho impossível e eu gosto de sonhos impossíveis. Ao longo da minha vida já participei em vários projetos que começaram praticamente do zero. A TVI foi um deles. Sempre gostei desse desafio de construir, de fazer nascer ideias. O Conta Lá tinha uma filosofia editorial diferente e isso conquistou-me desde o primeiro momento. O projeto que o Sérgio Figueiredo tinha na cabeça parecia-me inovador e fez-me acreditar que valia a pena embarcar nesta aventura.
Apesar da forma como terminou, continuas a acreditar que era uma boa ideia?
Continuo. Uma boa ideia não deixa de o ser porque corre mal. Havia ali uma filosofia editorial muito interessante.
Voltaste a falar com o Sérgio?
Não. Quando tu acreditas numa pessoa, que ainda por cima era tua amiga, e ela deixa de te responder, deixa de haver espaço para qualquer diálogo.
“O Mesa Nacional mudou a minha vida”
Muito bem, mudemos a agulha. Há quase 40 anos que fazes televisão. Quando olhas para trás, o que é que vês?
Vejo uma enorme sucessão de oportunidades e de pessoas que acreditaram em mim. Nunca planeei uma carreira como ela aconteceu. Fui trabalhando, aprendendo e aproveitando os desafios que iam surgindo. Tive a felicidade de passar por projetos muito diferentes e de trabalhar com profissionais extraordinários, que me ensinaram muito.
Há uma área em que deixaste uma marca muito própria: a gastronomia. O Mesa Nacional foi uma pedrada no charco. Trouxe uma linguagem diferente, numa altura em que praticamente não havia programas sobre gastronomia como os conhecemos hoje. Quantos anos durou essa aventura?
Foram quase nove anos. O Mesa Nacional nasceu depois de uma grande reportagem que fiz em 2000 sobre alta cozinha em Portugal, sobretudo no Algarve. Na altura, ainda não existiam chefs mediáticos. Fui fazer uma reportagem ao Vila Joya e percebi que havia ali um mundo extraordinário, cheio de histórias que ninguém estava a contar. Foi esse trabalho que despertou a minha curiosidade pela gastronomia.

Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Zito Colaço.