Marcelo Rebelo De Sousa Fala das férias e da vida após a presidência: “Esse peso desapareceu. É outra vida”
Com mais tempo para os netos, a praia e as viagens, o antigo Chefe de Estado diz sentir-se agora mais leve, recordou uma frase de Aníbal Cavaco Silva e explicou por que razão não pretende regressar à televisão.
Dois meses depois de deixar a Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa garante que está a viver uma fase muito diferente da sua vida. Longe das responsabilidades de Belém, o antigo Chefe de Estado diz sentir-se mais leve, com tempo para a família, as viagens e novos projetos, afastando também qualquer hipótese de regressar à televisão.
Ao recordar a transição para esta nova etapa, revelou uma conversa que teve com Aníbal Cavaco Silva, pouco depois de este deixar o cargo. Segundo contou, convocou um Conselho de Estado e surpreendeu-se ao ver o antecessor particularmente bem-disposto. “Ele respondeu-me: ‘Tinha um peso em cima dos ombros que desapareceu. Não sei para onde foi’. E eu disse-lhe: ‘Foi para os meus ombros’. Agora, esse peso desapareceu. É outra vida”, afirmou, durante a semifinal dos Emmys, que decorreu no passado dia 3, no Palácio de Queluz.
Sem a pressão da Presidência, tem aproveitado para recuperar tempo com a família, sobretudo com os netos, e para dedicar-se a atividades que lhe dão prazer. “Tenho mais tempo para os netos, para a praia, para viajar e para dar aulas a jovens entre os 15 e os 18 anos”, explicou, revelando que está envolvido num projeto de mentoria dirigido a estudantes de várias regiões do País. A iniciativa arrancou no Norte e já passou por Trás-os-Montes, Minho e Beiras. Agora vai levar o projeto até Lisboa, Alentejo e Algarve.
Questionado sobre o carinho que continua a receber dos portugueses, Marcelo admite que fez uma descoberta curiosa depois de deixar o cargo. Na sua opinião, a ligação criada com as pessoas vai muito além da política: “Percebi que o carinho que recebo não é por ter sido político. Tem muito a ver com os mais de 20 anos em que estive na Imprensa, na rádio e na televisão. As pessoas lembram-se daquela pessoa que lhes fazia companhia todos os dias e aos domingos. Criou-se um laço pessoal que não tem nada a ver com a política”.
Apesar desse reconhecimento, afasta qualquer possibilidade de regressar aos ecrãs. E fá-lo inspirado num conselho deixado pelo progenitor. “O meu pai dizia-me uma coisa: ‘Nunca se regressa a um sítio onde se foi muito feliz em piores condições’”, recordou. Para o antigo comentador televisivo, voltar agora faria pouco sentido, não só porque o panorama televisivo mudou profundamente, mas também porque acredita que cada fase da vida deve ser vivida no seu tempo. “Hoje estaria mais velho, com menos paciência, e a televisão também é diferente. Antigamente, consegui fazer programas vistos por quase quatro milhões de pessoas. Hoje, audiências de 500 ou 600 mil espetadores já são excelentes. O melhor é não repetir aquilo que resultou fora do seu tempo”, explicou.
Ainda assim, há tradições que permanecem inalteradas. Questionado sobre as férias de verão, respondeu de imediato que voltará a cumprir um hábito já com alguns anos. “Lá vou para Monte Gordo, no princípio de agosto, claro”, disse, mostrando que, apesar das muitas mudanças, há rotinas das quais não pretende abdicar.
Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Tito Calado