Lurdes Baeta “Sempre tive uma grande sede de descoberta”
Aos 55 anos, a jornalista da TVI já fez um pouco de tudo na profissão: habituada ao estúdio, foi coordenadora e diretora, mas é em reportagem que se cumpre enquanto profissional. Continua entusiasmada a contar histórias e garante que a inteligência artificial não substituirá um jornalista no terreno. Mãe de três filhos, terminou um longo casamento e vive agora um amor que não esperava.
Sabemos muito da jornalista, até por causa da tua experiência, mas sabemos pouco da mulher. E talvez tudo comece em Faro, onde cresceste. Tinhas pressa de sair do Algarve?
Tinha muita vontade de conhecer outras coisas, mas não porque sentisse que Faro era uma prisão. Nunca vivi a cidade como uma província fechada. A minha realidade era muito diferente.
Porquê?
Porque a minha casa era uma residencial. A minha mãe geria uma residencial e, por isso, cresci rodeada de pessoas de todo o País e de todo o mundo. Aquela era a minha vida. Entravam professores, polícias, juízes, funcionários da TAP, estrangeiros de mochila às costas… Durante o verão, recebíamos famílias que voltavam todos os anos. Eu cresci a ouvir histórias muito diferentes e a perceber que havia muitas maneiras de viver.
Ou seja, o mundo chegou até ti antes de saíres de Faro.
Exatamente. Os meus amigos não eram apenas os da escola. Eram também os amigos das férias, os filhos das famílias que regressavam todos os anos ao Algarve. Cresci a perceber que a vida era muito maior do que aquilo que via à minha volta.
Mesmo assim, havia qualquer coisa que te puxava para Lisboa.
Havia [sorrisos]. Lia religiosamente O Independente e a revista Kapa. Via exposições, concertos, debates, tudo o que acontecia em Lisboa, e pensava: “Eu quero viver isto.” Não era uma ambição profissional. Era uma vontade enorme de fazer parte daquele mundo.
Foi aí que percebeste que um dia ias sair.
Sim. Tinha 17, 18 anos. Nessa altura já vinha a Lisboa, já tinha amigos em Coimbra, ia à Queima das Fitas, fazia excursões com o meu pai por Portugal e até já tinha ido à Suíça. Os meus pais fizeram um grande esforço para nos mostrar que havia muito para lá da nossa cidade. E isso marcou-me profundamente.
Quando olhavas para Lisboa através dos jornais e das revistas, já te imaginavas jornalista?
Não. Nunca tive aquele sonho de infância de ser jornalista. O que eu queria era viver aquele ambiente. Queria ir às exposições, aos concertos, aos debates, conhecer pessoas diferentes. Sentia que a minha vida podia ser maior do que aquilo que conhecia até então.
A curiosidade veio antes da profissão.
Claramente. Sempre gostei de perceber como viviam os outros. Talvez porque tivesse crescido naquela residencial, onde todos os dias apareciam pessoas com histórias diferentes. Antes de pensar no jornalismo, já tinha essa curiosidade pelas pessoas e pelo mundo.
Os teus pais alimentaram muito essa inquietação.
Muito. O meu pai fazia um enorme esforço para nos mostrar o País. Não tínhamos muito dinheiro, por isso viajar de avião era impensável, mas fazíamos excursões por Portugal. Também tínhamos amigos na Suíça e consegui conhecer outras realidades ainda muito nova. Eles fizeram tudo para que não crescêssemos fechados sobre nós próprios.
Nunca te ensinaram a ter medo de sair de casa.
Nunca. Pelo contrário. Acho que sempre perceberam que eu precisava de conhecer outras coisas. E isso deu-me uma enorme liberdade para escolher o meu caminho.
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Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Tito Calado