João Pedro Mendonça “A minha curiosidade alimenta-me a alma”
Tem 58 anos, começou na rádio há 40 e dedicou-se a essa “droga”, a que se seguiu a televisão, como forma de comunicar com os outros. Jornalista da RTP, é a voz da Volta a Portugal em Bicicleta desde 1998. Mas é muito mais do que isso. Observador atento, poeta das palavras, João Pedro Mendonça é um lisboeta com espírito de aldeia.
Estamos no final de um mês marcado pela Volta a Portugal em Bicicleta. Tu narras a prova na RTP desde 1998. Mas tu não és propriamente um homem do ciclismo.
Não sou, não. Aliás, só comprei a minha primeira bicicleta quando já era narrador de ciclismo [risos].
Como é que isso é possível?
Os meus pais eram pessoas avisadas [risos]. Eu parti a cabeça demasiadas vezes sem bicicleta para eles arriscarem dar-me uma. Tinha uma certa tendência para o desastre e eles achavam que era melhor não tentar a experiência.
Portanto, nem na infância andavas de bicicleta.
Não. Aliás, aprendi muito tarde. Devia ter uns 18 anos quando, numa festa de anos, toda a gente decidiu ir dar uma volta de bicicleta. Só havia uma bicicleta e aquilo era à vez. Quando chegou a minha vez, tentei passar. Tinha vergonha de dizer que não sabia andar.
E não te deixaram escapar.
Não [risos]. A malta insistiu naquele espírito de solidariedade e eu tive mesmo de montar na bicicleta. Foi um milagre. Consegui segurar-me.
E depois?
Depois quis gabar-me [risos]. Quando percebi que não caía, quis revelar o grande segredo. Mas a seguir correu tudo mal [risos]. Em boa verdade, adorei a experiência. Foi espetacular. Senti que me tinha emancipado.
E, entretanto, tornaste-te a voz da Volta a Portugal.
É uma daquelas ironias da vida. Comecei a fazer a Volta como repórter, ainda pela rádio e depois pela televisão, em 1997. Em 1998 passei a narrá-la na RTP e, desde aí, só não a fiz num ano olímpico em que os Jogos não me permitiram, porque havia sobreposição de horários.
Ou seja, a tua relação com o ciclismo nasceu já dentro da profissão.
Exatamente. Eu sou um generalista. Um especialista em generalidades. A minha especialidade é mudar o chip. Não sou um especialista de ciclismo e nunca quis fingir que era.
E isso é uma vantagem?
Acho que sim. O Marco Chagas é a autoridade técnica. Não há ali qualquer competição de autoridade. Ele não mete um dedo na minha narrativa e eu não meto um dedo na técnica, na análise tática ou no que quer que seja. O meu papel é outro.
Qual?
É representar o espectador que não sabe. O serviço público é de todos. É de quem adora ciclismo, mas também é de quem não conhece a modalidade e está simplesmente a ver a Volta porque passou na televisão. Se o espectador não sabe o que é um carreto, um andamento ou uma determinada técnica de um sprinter, também tem direito a perceber o que está a ver. E, se gosta mais da paisagem, da geografia, da história ou da identidade do território, também tem direito a que isso lhe seja contado.
Leia a entrevista na íntegra na NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas!

Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Tito Calado.