Entre Brindes Adivinham-se tempos de instabilidade para a Noruega

Ser filho de Harald V já seria uma enorme responsabilidade. Ser agora o rei de uma família onde quase todos têm uma polémica à porta é um desafio completamente diferente.

Há mortes que deixam um país de luto. E há mortes que deixam também um país a perguntar-se o que acontece a seguir. A de Harald V é, para mim, uma dessas. O rei morreu aos 89 anos, depois de 35 anos no trono, e deixa uma monarquia que continua popular, mas que atravessa provavelmente um dos períodos mais delicados da sua história recente.

Harald tinha uma característica que poucos monarcas conseguem conquistar: era genuinamente amado pela população. Era visto como próximo, humilde e, acima de tudo, como uma figura capaz de representar a unidade dos noruegueses. A sua morte não significa apenas a sucessão. Significa a saída de cena de uma espécie de porto seguro.

No trono fica agora Haakon VIII. E não invejo a posição em que o novo rei se encontra. Transmite uma imagem mais séria e institucional, mas recebe uma família que parece ter sido construída para produzir manchetes. A própria irmã, Marta Luísa, afastou-se das funções oficiais e casou com um autoproclamado xamã que se tornou uma figura altamente controversa pelas suas afirmações sobre saúde e pelas suas práticas comerciais.

Filho mais velho da rainha condenado por violação

Depois temos Mette-Marit, que além de atravessar uma situação de saúde extremamente delicada, depois de ter sido submetida a um transplante pulmonar, viu o seu nome surgir associado ao escândalo Jeffrey Epstein, uma polémica que naturalmente atinge a imagem da família real, mesmo quando as responsabilidades individuais são muito diferentes.

E, como se tudo isto não bastasse, existe Marius Borg. O filho mais velho da agora rainha, fruto de uma relação anterior e que não faz parte da linha de sucessão, foi condenado a quatro anos de prisão depois de o tribunal o considerar culpado de 34 crimes, incluindo duas violações, violência doméstica e agressões. O caso abalou profundamente a monarquia norueguesa e continua em recurso.

É muita coisa para uma família. E é ainda mais quando essa família representa uma instituição. Por isso, a minha esperança está em Ingrid Alexandra. A jovem princesa, agora primeira na linha de sucessão, foi preparada desde cedo para um dia assumir o trono. Tem formação académica, experiência militar e uma imagem que poderá tornar-se fundamental para a renovação da monarquia. No próprio momento em que o rei prestou o juramento constitucional, foi precisamente Ingrid quem esteve ao seu lado, uma imagem que me pareceu particularmente simbólica. Porque o monarca talvez precise dela mais do que imagina.

Harald deixa-lhe uma monarquia forte precisamente porque conseguiu construir uma relação de confiança com os noruegueses. O desafio de Haakon será não deixar que os problemas da sua família se transformem numa crise da instituição que agora representa.

Porque governar também é saber colocar o dever acima da emoção. E, numa família tão exposta e tão fragilizada, o monarca vai ter de decidir muitas vezes quando deve ser simplesmente um pai e quando tem de ser o rei.

Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Shutterstock

Notícia www.novagente.pt

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