Algés – O que se passou na mente do jovem durante a tragédia? Psicólogo deixa explicação

Um psicólogo explica como os dois irmãos poderão processar de forma diferente o trauma e alerta para os efeitos de uma exposição prolongada à violência.

Algés - O que se passou na mente do jovem durante a tragédia? Psicólogo deixa explicação

O caso do jovem de apenas 15 anos que matou a mãe em Algés com recurso a uma manobra mata-leão continua a chocar o país e as dúvidas multiplicam-se.

À TVI, João Veloso, psicólogo do Observatório do Trauma dos CES da Universidade de Coimbra, explica que efeitos é que pode ter, para este adolescente de 15 anos e para esta criança de 4, o contexto recorrente de violência doméstica. “Todos estes enquadramentos são curiosos de serem analisados porque nos apercebemos da disfuncionalidade familiar, situação aparente de um crime já cometido pelo pai, agressividade, violência; sabemos que a mãe, por exemplo, sofria de perturbação psicológica e tinha um quadro psiquiátrico instalado”, começou por dizer.

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Note-se que, tal como a VIP referiu anteriormente, a família tinha-se mudado há pouco tempo para aquela casa. “Vêm à procura de mudar a vida, o quer dizer que antes já não era grande coisa. Os níveis de expectativa e a capacidade de regular as frustrações vão estar muito complexos e tudo faz com que os recursos desta família sejam muito curtos, até porque nem rede social de apoio têm”, explicou.

Como é que estas crianças vão processar a tragédia?

“Vão processar de forma diferente”, explica o Dr. João Veloso. “O adolescente de 15 anos tem o uso de alguns elementos cognitivos com alguma robustez, vai ter pensamentos e emoções de grande raiva, de grande revolta… na menina de apenas 4 anos são essencialmente reações emocionais e sensoriais. É esta a diferença”.

“Trauma complexo instalado”

Caso se confirme que a mãe era executora de maus tratos, estamos eventualmente a falar da “construção de uma pseudo narrativa por parte do jovem para poder lidar com as circunstâncias”, revela. “Há claramente um trauma complexo instalado porque temos as figura de proteção como figuras de agressão e vai determinar o conjunto de respostas que leva a estes comportamentos.”.

No momento da tragédia, segundo o psicólogo João Veloso, o adolescente poderá ter sofrido um processo de desassociação, não estando plenamente consciente das consequências naquele momento e construindo a ideia de que estava a proteger a irmã e a si próprio. O jovem “desregulou-se tanto que ele desassocia durante aquela manobra… ele não está plenamente consciente das consequências. Ele pensa: ‘eu estou a proteger a minha irmã e estou a proteger-me a mim. A mãe faz-nos coisas más’. Ele constrói esta narrativa e estas ideias não vão desaparecer. ”

Por fim, o psicólogo garante que é possível com a ajuda técnica certa reintegrar este adolescente na sociedade, mas alerta para o facto de os recursos poderem não estar disponíveis no tempo útil.

Texto: Maria Constança Castanheira; Foto: Unsplash

Notícia www.vip.pt

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