Entre Brindes Afinal, os Anjos sabem rir-se deles próprios?

Aquilo que mais me intriga em toda a polémica entre os Anjos e Joana Marques nem é já o processo judicial. É aquilo que aconteceu depois.

Entre Brindes Afinal, os Anjos sabem rir-se deles próprios?

Durante meses, os irmãos Rosado passaram a imagem de que tinham sido profundamente lesados por uma piada. A indignação parecia enorme, o desconforto real, e a mensagem transmitida ao público era clara: brincar com a imagem dos Anjos ultrapassava limites que não deveriam ser ultrapassados.

E depois surge a campanha de uma marca de águas com gás. Uma campanha construída precisamente à volta do humor, da ironia e da ideia de que, afinal, os Anjos sabem rir-se de si próprios. E foi aqui que muita gente sentiu um enorme desconforto. Porque o problema nunca pareceu ter sido propriamente a piada em si, mas quem a fez e o facto de não a terem conseguido controlar. É difícil pedir ao público que leve a sério uma revolta tão grande para, pouco tempo depois, transformar toda a polémica em entretenimento publicitário. E acho que foi exatamente aí que muita gente perdeu a ligação emocional aos irmãos Rosado. Porque o público aceita erros. Aceita exageros emocionais. Aceita até reações impulsivas. O que custa aceitar é a incoerência.

Durante todo este processo, ficou a sensação de que o humor era intolerável quando vinha dos outros, mas perfeitamente aceitável quando servia para limpar imagem, gerar engagement ou fechar contratos publicitários. E isso acaba inevitavelmente por criar uma ideia perigosa: a de que tudo isto foi mais espetáculo do que dor genuína. A campanha da Frize talvez tivesse funcionado noutra altura, noutro contexto, com outras figuras públicas. Mas neste caso teve quase o efeito contrário. Em vez de aproximar os Anjos do público, fez muita gente questionar se toda a indignação anterior não terá sido excessiva, ou até contraditória.

Porque quem passa meses a mostrar-se profundamente revoltado com piadas dificilmente consegue, de um momento para o outro, transformar-se no protagonista bem-disposto da própria brincadeira sem causar estranheza. E é precisamente essa estranheza que continua a pairar.

No fundo, acho que os portugueses sentiram que houve uma tentativa de reescrever rapidamente a narrativa. Como se bastasse uma campanha divertida para apagar meses de tensão pública, tribunais, discursos sérios e uma sensação coletiva de exagero. Mas o público não esquece assim tão depressa.
 

 

Texto: Luís Duarte Sousa; Fotos: Impala

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