Carlos Daniel “Nunca perdi a vontade de ser uma pessoa normal”

Carlos Daniel, que é, para muitos, o mais completo jornalista da nossa televisão, esteve à conversa com Nuno Azinheira. Entre a “obsessão” pela preparação dos debates e o “recreio” que encontra no futebol, não esconde o amor à camisola do serviço público. No Porto, onde “gere” o Monte da Virgem, o rosto da RTP recorda os tempos dos relatos imaginários e garante: “O jornalismo não pode aceitar factos alternativos”

Carlos, eleições legislativas em 2024, europeias também em 2024, novas legislativas em 2025, autárquicas em 2025 e presidenciais em 2026. Estás a rezar por todos os santinhos para que haja estabilidade?

Para que haja estabilidade pelo menos durante mais três anos e para que não haja eleições. Eu faço aquilo de que gosto muito e, nesses momentos eleitorais, do ponto de vista profissional, o trabalho é mais desafiante. Não vou dizer que não gosto quando há eleições. Agora, enquanto cidadão, e até por uma questão de descanso coletivo, acho que o País precisa de respirar um pouco depois de tantos atos eleitorais seguidos.

Os números da participação dizem que os portugueses não estão assim tão cansados de votar.

É verdade. Houve até fenómenos curiosos. Por exemplo, nas presidenciais houve também um efeito de rejeição de algumas candidaturas que mobilizou eleitores. Nas legislativas, tiveste uma subida da abstenção, o que é paradoxal, porque as pessoas estão a ser chamadas às urnas com muita frequência. Mas, no geral, parece-me positivo. Temos um país onde as pessoas continuam disponíveis para participar em eleições sucessivas, mesmo em condições difíceis.

Mesmo com um inverno rigoroso e cheias.

Exatamente. E duas vezes seguidas com resultados relativamente previsíveis. Mesmo assim, as pessoas foram votar. Isso, em termos democráticos, é uma coisa muito saudável.

Tu sabes a opinião que tenho sobre ti. Já escrevi várias vezes que és provavelmente o jornalista mais completo da informação televisiva portuguesa. Fazes bem tudo. A preparação para estes momentos é muito exigente, apesar de gostares muito de política.

Sem dúvida. Eu gosto muito de política. Faço uma comparação que é muito evidente na minha vida: também gosto muito de futebol. Quando vou comentar um Campeonato do Mundo, estudo as equipas todas, os jogadores, os sistemas de jogo. É quase como voltar aos cromos.

Aos cromos?

Sim, aos cromos. Quando não os tenho, agora procuro na internet. Mas a lógica é a mesma: conhecer tudo. Quando era miúdo, fazia relatos imaginários de jogos com os meus irmãos e amigos.

Com microfone?

Sim. Cada um tinha um microfone ligado à aparelhagem lá de casa. Fazíamos relatos e passávamos a palavra um ao outro. Era um bocadinho como o Oliver Gião na Rádio Comercial: “Muito boa tarde para todo o querido e vasto auditório da Comercial”. [risos]

Voltando à política: como é que se prepara um debate eleitoral?

A preparação é quase obsessiva. Nessa fase é fechar tudo e concentrar-me apenas naquilo. Cada minuto que não estou a ler coisas sobre política, programas, entrevistas, declarações dos candidatos, sinto que estou a falhar. Todo o tempo útil que tenho é dedicado a isso. Vou guardando notas num documento Word, no telemóvel, em todo o lado. Depois, quando se aproximam os debates, pego nessa informação toda e transformo-a em perguntas.

Moderar debates hoje também é mais difícil do que era há alguns anos.

É diferente. Antigamente havia discordância entre candidatos, mas todos estavam dentro do mesmo quadro democrático tradicional. Hoje tens candidatos disruptivos. Isso coloca desafios novos a quem modera. Há duas preocupações essenciais. A primeira é respeitar toda a gente. Gosto que me digam que nunca me viram gozar com um candidato. Posso questionar ideias, posso mostrar que uma proposta não faz sentido, mas a pessoa que está ali merece respeito.

E a segunda preocupação?

Corrigir inverdades factuais. Eu não discuto opiniões. Mas quando alguém afirma algo objetivamente falso, tenho de corrigir no momento. Se alguém diz que na pandemia morreram duzentas pessoas quando já morreram vinte mil, isso tem de ser corrigido. O jornalista não pode aceitar “factos alternativos”.

 

Leia a entrevista na íntegra na NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas!

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Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Zito Colaço

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