Exposição em Serralves gera polémica ao retratar Hitler em posição de oração
A polémica em torno da exposição Sussurro, em Serralves, estalou por causa da obra ‘Him’, de Maurizio Cattelan. Hitler ajoelhado, em oração.
A polémica em torno da exposição Sussurro, no Museu de Serralves, gira principalmente em torno de uma das obras mais conhecidas do artista italiano Maurizio Cattelan: a escultura Him, de 2001. A peça retrata Adolf Hitler ajoelhado, em posição de oração. Gesto associado de imediato à devoção religiosa, especialmente à tradição católica.
Vista de costas, a figura parece frágil, quase infantil [vídeo]. O que cria a falsa sensação de inocência antes da revelação perturbadora da identidade retratada na peça. O impacto está exatamente nesse contraste. Ao aproximar-se e reconhecer Hitler, o visitante é confrontado com um choque moral. A imagem de um dos maiores responsáveis por atrocidades do século XX colocada numa postura de humildade e súplica.
Este jogo visual contraditório é totalmente intencional. Cattelan não procura empatia nem redenção, mas provoca uma reação visceral, explorando o desconforto entre forma e conteúdo. Ao utilizar símbolos fortemente ligados ao catolicismo – como o ajoelhar-se, o silêncio e a oração –, o artista levanta questões profundas e incómodas. Pode o Mal absoluto pedir perdão?
Peça de Hitler em Serralves considerada afronta inaceitável

Uma personagem historicamente monstruosa pode ser representada de forma humana sem que isso soe como relativização dos seus hediondos crimes? A aparência piedosa entra em choque direto com a memória coletiva do horror nazi, obrigando o público a refletir sobre culpa, julgamento e limites éticos. Inserida no contexto da exposição Sussurro, a obra ganha ainda mais força.
A mostra reúne trabalhos que abordam temas como culpa, morte, religião e ironia cruel, sempre de forma silenciosa e indireta. O título sugere exatamente isso: não há discursos explícitos nem explicações fáceis. As obras não gritam, mas incomodam de forma profunda. É nesse limite entre reflexão e ofensa que surge a polémica para uns e arte provocadora e necessária para outros: uma afronta inaceitável.