Carlos Queiroz selecionador do Gana: “Peso da camisola é 20 gramas no balneário e de 20kg em campo”
Carlos Queiroz foi oficialmente apresentado como selecionador nacional das ‘Black Stars’. Aos 73 anos, o técnico português abraça a sua nona experiência em seleções A.
O auditório do Alisa Hotel, na capital do Gana, transformou-se nesta quinta-feira num palco de euforia e ambição. Entre cânticos e a presença de mais de uma centena de pessoas, Carlos Queiroz foi oficialmente apresentado como o novo selecionador nacional das ‘Black Stars’. Aos 73 anos, o técnico português abraça a sua nona experiência em seleções A, carregando um currículo de 260 jogos e o recorde de 141 vitórias no futebol internacional.
“As minhas primeiras palavras são para expressar a minha gratidão pelo enorme apoio desde que cheguei” (Carlos Queiroz)
Com passagens pelos comandos de Portugal, Emirados Árabes Unidos, África do Sul, Irão (por três vezes), Colômbia e Egito, Queiroz prepara-se agora para a sua quinta fase final de um Campeonato do Mundo, igualando o registo de Bora Milutinovic e ficando apenas atrás das seis presenças de Carlos Alberto Parreira.
A alma das ‘Black Stars’
A receção calorosa em Acra não passou despercebida ao treinador. “As minhas primeiras palavras são para expressar a minha gratidão pelo enorme apoio desde que cheguei. É um privilégio para mim estar aqui hoje”, afirmou, sublinhando que a conexão com o país foi imediata. “Desde que cheguei que senti a alma dos Black Stars. Esta alma é grande. A expetativa é grande.”
Apesar do entusiasmo, Queiroz não ignora a magnitude da tarefa que tem em mãos. Confrontado com o estado atual da equipa, foi direto na análise. “É o maior desafio da minha carreira; e estou preparado. Trago 40 anos de experiência para cada decisão que vai ser tomada.”
Disciplina e a linguagem da vitória
Conhecido pelo rigor tático e pela organização defensiva, o técnico português rejeitou rótulos redutores sobre o seu estilo de jogo. “Não existe no futebol moderno essa coisa de ser defensivo ou ofensivo. Existe a linguagem da vitória”, explicou. Para Queiroz, a estratégia é pragmática. “Se temos a bola, temos de atacar. Se não a temos, temos de lutar juntos. No final, só há um objetivo: ganhar.”
Sobre a gestão de balneário e os egos das estrelas ganesas, o selecionador foi implacável na sua filosofia de grupo. “Comigo, ninguém está acima da equipa. Não falo de nomes. Só falo em equipa. A equipa é o nosso ‘jogador’ mais importante”, sentenciou, acrescentando que as personalidades fortes devem ser canalizadas para o coletivo. “Precisamos de egos, precisamos de personalidades; precisamos que estejam ao serviço da equipa.”
“Existe diferença entre tomar uma boa decisão ou tomar a decisão certa. O que posso prometer é trabalho” (Carlos Queiroz)
Preparação Contra o Relógio
Com o Mundial no horizonte, o tempo é o principal adversário. Queiroz revelou estar já a implementar um programa de observação profunda, que inclui dois grupos de trabalho: um focado nos jogadores que atuam no estrangeiro e outro dedicado ao talento local.
“Ninguém é dono da camisola da seleção”, avisou o técnico, deixando um alerta sobre a exigência do futebol internacional. “O peso da camisola é de 20 gramas no balneário; e de 20kg assim que se entra em campo.” O primeiro grande teste está definido: vencer o Panamá. “Existe diferença entre tomar uma boa decisão ou tomar a decisão certa. O que posso prometer é trabalho.”
O legado e a lição de Mandela
Questionado sobre a possibilidade de replicar no Gana o trabalho de base que desenvolveu em Portugal, Queiroz mostrou-se ambicioso quanto ao futuro do futebol ganês. “O dever do treinador nacional é ter as mãos no presente e os olhos no futuro. Este país tem um enorme potencial. É um país de futebolistas. Estou convencido de que pode ser mais do que isso: pode ser um país de campeões”, afirmou, admitindo o desejo de criar uma dinastia de sucesso.
Quanto à pressão de atingir ou superar os quartos-de-final – o melhor registo histórico do Gana em Mundiais –, o selecionador recorreu a uma memória pessoal para afastar o medo do erro. “Mandela disse-me um dia: ‘Carlos, nunca perdemos; ou ganhamos ou aprendemos’. Por isso, não tenho medo de nada”, recordou. “Não existe falhanço. O que existe é oportunidade para ser melhor.”
Com contrato que poderá prolongar-se além do Mundial, caso os resultados sorriam, Queiroz não escondeu o encantamento com a nova casa. “Não me importo de ficar no Gana o resto da minha vida.”