Mars One: A verdade sobre o projeto que prometeu Marte e terminou em falência
Descubra a verdade sobre a missão Mars One. Analisamos a falência da empresa, a participação da brasileira Sandra Feliciano e a viabilidade da missão a Marte.
O projeto Mars One, lançado em 2013, capturou a imaginação de milhões ao prometer o que parecia impossível: estabelecer uma colónia humana em Marte através de uma viagem sem segresso. A iniciativa, liderada pelo holandês Bas Lansdorp, apresentava um plano audacioso que misturava ciência com entretenimento, prevendo financiar a missão através de um enorme reality show global. No entanto, o que começou como uma esperança de exploração interplanetária acabou por revelar-se um dos maiores fracassos da indústria aeroespacial privada.
Os números da polémica e a seleção dos cem
A organização anunciou, na altura, que recebeu mais de 200 mil inscrições de voluntários de todo o mundo. Contudo, este número foi alvo de forte contestação por parte de vários investigadores e até de próprios candidatos. Algumas fontes sugeriram que o número real de inscritos que completaram o processo pago era drasticamente inferior, rondando apenas os 2.700 participantes. Independentemente da discrepância dos números, o processo avançou e, em 2015, foi anunciada a lista dos ‘Mars 100’.
O grupo de cem finalistas, composto por 50 homens e 50 mulheres, representava a elite dos voluntários dispostos a abdicar da vida na Terra. O objetivo seria reduzir este grupo para apenas 24 eleitos, que seriam treinados durante oito anos antes da partida.
A presença brasileira e a ausência de portugueses
Entre os cem finalistas selecionados para a terceira fase do programa, destacou-se a brasileira Sandra Maria Feliciano Silva. Professora em Porto Velho, Rondónia, Sandra tornou-se na única representante do Brasil a chegar tão longe no processo, defendendo que a sua coragem e espírito de sobrevivência eram os atributos certos para a missão.
Por outro lado, Portugal viu as suas esperanças terminarem mais cedo. Embora três portugueses tivessem chegado a figurar entre os 705 candidatos da segunda ronda, nenhum conseguiu garantir um lugar na lista final dos cem. O critério de seleção, que incluía entrevistas online com especialistas em saúde aeroespacial, acabou por ditar o afastamento dos representantes nacionais.
As falhas técnicas apontadas pelo MIT
A viabilidade do Mars One nunca foi consensual na comunidade científica. Um dos estudos mais contundentes partiu do prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT). Os investigadores concluíram que, com a tecnologia planeada pela Mars One, a primeira morte de um colono ocorreria aproximadamente ao 68.º dia de missão. Os problemas centravam-se nos sistemas de suporte de vida:
– O cultivo de plantas para alimentação produziria níveis de oxigénio perigosamente elevados, tornando a atmosfera inflamável.
– A tecnologia para remover o excesso de oxigénio sem perder o azoto necessário para a pressão atmosférica ainda não estava devidamente testada para tal escala.
– A dependência de peças de substituição enviadas da Terra tornaria a colónia insustentável a longo prazo devido aos custos logísticos.
O fim da linha e a declaração de falência da Mars One Ventures
O golpe final no projeto surgiu em janeiro de 2019, quando a Mars One Ventures foi declarada falida por um tribunal suíço. A empresa, que deveria ser o motor financeiro de toda a operação, tinha dívidas acumuladas e não possuía qualquer infraestrutura real de hardware espacial. Ao contrário de empresas como a SpaceX, a Mars One não construía os seus próprios foguetões, dependendo totalmente da compra de tecnologia a terceiros, para a qual nunca teve fundos suficientes.
Casos semelhantes e o futuro de Marte
O fracasso da Mars One não travou o entusiasmo pela colonização do Planeta Vermelho, mas mudou o foco para entidades com maior capacidade técnica e financeira.
– A SpaceX de Elon Musk continua a desenvolver a Starship com o objetivo de enviar humanos para Marte ainda nesta década.
– A NASA mantém o programa Artemis como um passo intermédio, utilizando a Lua como base de testes para a futura exploração marciana.
Projetos de simulação, como o Projecto Leonardo liderado pelo engenheiro português Ricardo Patrício em 2005, continuam a ser fundamentais para estudar a dinâmica de grupo em ambientes isolados.
A história da Mars One serve hoje como lição sobre a diferença entre o marketing de exploração e a complexidade real da engenharia aeroespacial.