Exorcismo Pop: O mistério da mulher possuída por Shakira [vídeo]
Saiba tudo sobre o vídeo da mulher supostamente possuída por Shakira. Analisamos a origem do vídeo de 2023 que voltou a tornar-se viral.
A internet foi novamente inundada nesta semana com as imagens bizarras de uma mulher supostamente possuída por Shakira. No vídeo, que circula sem controlo em diversas plataformas, a protagonista surge num estado de aparente transe profundo durante um culto religioso, movendo-se de forma espasmódica enquanto entoa o refrão de “Waka Waka”, o hino do Mundial de 2010.
Contudo, o que muitos utilizadores acreditam ser um acontecimento recente – impulsionado pela euforia da atual digressão mundial da cantora em 2026 – é, na verdade, um cadáver mediático ressuscitado. A investigação rigorosa dos factos prova que o registo tem três anos e nada tem de sobrenatural.
Epicentro do fenómeno: Baranoa, 2023
O evento original não ocorreu agora. Teve lugar em março de 2023, no município de Baranoa, na Colômbia. O vídeo foi inicialmente partilhado pelo Pastor Juan Gabriel Peña, figura conhecida na região por realizar sessões de “libertação espiritual” com forte apelo visual para as redes sociais. Na altura, o vídeo tornou-se num fenómeno global porque a fiel não se limitava a murmurar; ela emulava o timbre específico de Shakira com precisão desconcertante.
A análise fria dos acontecimentos revela que esta não é a primeira vez que o conteúdo é retirado do seu contexto temporal. Em 2023, o Pastor Peña acabou por apagar o vídeo original do seu perfil de TikTok após a avalanche de críticas e a transformação do momento num meme de escala mundial. O vídeo que vemos hoje é uma cópia de uma cópia, frequentemente apresentada com legendas novas para dar uma falsa sensação de atualidade.
“É uma manifestação de referências culturais que emergem num estado de transe, seja ele genuíno ou performativo”
Performance ensaiada ou surto psicótico?
A comunidade científica e analistas de comportamento que acompanharam o caso na sua génese descartam qualquer interferência do além. Existem duas linhas explicativas principais para o que as imagens mostram.
Por um lado, especialistas em fenomenologia religiosa apontam para um estado de catarse emocional ou histeria coletiva. Num ambiente de alta sugestão, como são estes cultos de exorcismo, o cérebro pode projetar referências culturais profundas – neste caso, a música da maior estrela do país – como válvula de escape para o stress ou repressão emocional.
Por outro lado, a precisão vocal da mulher sugere algo muito mais pragmático: uma encenação. No mundo dos pastores influenciadores, o choque é a moeda de troca para obter visualizações e atrair novos fiéis.
“É uma manifestação de referências culturais que emergem num estado de transe, seja ele genuíno ou performativo”, referiram analistas na época. O facto de a mulher também ter interpretado passagens de temas de Rihanna reforça a ideia de que o seu repertório de possessão estava intimamente ligado à cultura pop radiofónica e não a qualquer entidade mística.
A armadilha dos algoritmos em 2026
A razão pela qual este vídeo regressou com tanta força em maio de 2026 é puramente matemática. Com a digressão de Shakira a dominar as tendências de pesquisa e as notícias globais, os algoritmos das redes sociais priorizam qualquer conteúdo que contenha o nome da artista. Páginas de entretenimento e perfis que procuram crescimento rápido utilizam estes vídeos antigos, limpam as datas originais e servem-nos como se tivessem acontecido ontem.
O público, movido pela curiosidade e pelo insólito da afirmação de alguém estar possuída por Shakira, partilha o conteúdo de forma impulsiva. Este ciclo de desinformação é alimentado por vários fatores.
- • A ausência de contexto cronológico nas publicações de Instagram e TikTok.
- • A sobreposição de novas legendas e narrações em cima do áudio original.
- • O aproveitamento comercial do nome da cantora em períodos de alta exposição mediática.
A morte da verdade no altar do clique
Em conclusão, devemos separar o espetáculo da realidade. A mulher do vídeo não está possuída nem o evento é recente. Estamos perante um exercício de reciclagem de conteúdos que explora a credulidade do público e a eficácia dos algoritmos de recomendação.
A verdade é menos excitante do que a ficção: trata-se apenas de um registo de 2023, no interior subterrâneo da Colômbia, que sobrevive no arquivo digital para servir de entretenimento bizarro.
No jornalismo de rigor, os factos não têm prazo de validade, mas o contexto sim. E o contexto aqui é claro: é um conteúdo falso para os padrões de atualidade de 2026.