ACNUR reporta 609 mil deslocados em Moçambique
Moçambique contabilizou 609 mil deslocados internos até maio de 2025, ano em que as operações do ACNUR no país registaram um défice de financiamento de mais de 22 milhões de dólares, avançou hoje a agência da ONU.
De acordo com o Relatório Anual de Resultados 2025 do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), consultado hoje pela Lusa, Moçambique enfrenta “desafios humanitários sobrepostos” impulsionados por conflito, choques climáticos e vulnerabilidades estruturais, situação que continua a afetar centenas de milhares de pessoas.
“A violência nos distritos do norte é um dos principais motores da deslocação, com 609.000 deslocados internos até maio de 2025, incluindo 461.000 deslocados pelo conflito e os restantes por eventos relacionados com o clima”, refere a agência das Nações Unidas, frisando que os distritos do norte do país permanecem no centro da crise.
De acordo com o relatório, os “ataques esporádicos” de grupos armados no norte de Moçambique em 2025 continuaram a provocar deslocações e instabilidade, “levando a mais deslocamentos”.
O ACNUR reconhece que houve um aumento dos regressos durante o ano, mas alerta que muitos retornados e deslocados continuam a enfrentar riscos significativos de proteção e acesso limitado a serviços, meios de subsistência e habitação adequada.
Segundo o ACNUR, a situação humanitária foi igualmente agravada por uma sucessão de eventos climáticos extremos num dos países mais vulneráveis às alterações climáticas.
“Moçambique está entre os países mais vulneráveis do mundo às alterações climáticas e a época ciclónica de 2024-2025 causou devastação generalizada”, descreve a agência das Nações Unidas.
O relatório assinala ainda que o ciclone Chido afetou 454 mil moçambicanos, em dezembro de 2024, destruindo habitações, escolas e unidades sanitárias em Cabo Delgado e Nampula. Em janeiro de 2025, o ciclone Dikeledi atingiu outras 283 mil pessoas com ventos fortes e chuvas intensas na província de Nampula e, dois meses depois, o ciclone Jude afetou mais de 390 mil pessoas, provocando novos deslocamentos e aumentando a pressão sobre os mecanismos de resposta nacional e humanitária.
“O ciclone Jude, em março de 2025, afetou mais de 390.000 pessoas, provocando deslocamentos extensivos e pressionando a capacidade nacional e humanitária de resposta”, refere o documento.
A agência acrescenta que “as comunidades de acolhimento enfrentam uma pressão crescente, uma vez que os agregados familiares afetados pelo conflito e pelo clima requerem apoio contínuo”, alertando para o impacto combinado das duas crises sobre serviços básicos, habitação e meios de subsistência.
Perante o agravamento das necessidades humanitárias, a agência refere que apelou a 42,7 milhões de dólares (37,3 milhões de euros) para financiar a sua operação no país, mas recebeu pouco mais de metade desse montante. Até dezembro de 2025, acrescenta o documento, existia “uma lacuna de financiamento de 22,08 milhões de dólares [19,2 milhões de euros]”.
O ACNUR admite também que a falta de recursos condicionou a resposta humanitária.
“A resposta humanitária enfrentou insuficiências de financiamento em setores críticos, o que contribuiu para atrasos na melhoria das condições dos locais, na expansão dos serviços nos distritos que acolhem deslocados internos e no reforço dos sistemas nacionais”, refere-se no documento.
A província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, rica em gás natural, enfrenta desde outubro de 2017 uma insurgência armada associada a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, conflito que já provocou mais de 6.600 mortos, segundo organizações internacionais.
A última época das chuvas em Moçambique, que habitualmente decorre de outubro a abril, matou 314 pessoas, afetou mais de 1,078 milhões de pessoas e atingiu quase 260 mil casas, segundo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD).
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By Impala News / Lusa