Sudão: O abismo de um Estado onde a pobreza já capturou 7 em cada 10 pessoas

Sudão atinge 70% de pobreza em 2026. A guerra civil entre o Exército e as RSF devastou o país. Conheça o impacto da crise humanitária.

Sudão: O abismo de um Estado onde a pobreza já capturou 7 em cada 10 pessoas

A realidade no Sudão em abril de 2026 é de uma brutalidade estatística que desafia a compreensão. De acordo com os últimos relatórios das Nações Unidas, o país atravessa agora o que é considerado o pior colapso humanitário do século XXI. O que começou como uma disputa de poder entre dois generais em 2023 transformou-se num mecanismo de trituração social que atira milhões para a indigência absoluta.

Como é que um país perde o futuro em três anos?

Antes de abril de 2023, a pobreza no Sudão afetava cerca de 38% da população. Hoje, o cenário é radicalmente distinto. Luca Renda, diretor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), confirmou que cerca de 70% dos sudaneses vivem agora abaixo da linha da pobreza, sobrevivendo com menos de quatro dólares por dia. O dado mais alarmante indica que pelo menos um quarto da população vive com menos de dois dólares diários, o que em termos práticos significa a impossibilidade de garantir uma única refeição completa.

A economia sudanesa não está apenas estagnada; recuou décadas. Os rendimentos médios caíram para níveis registados pela última vez em 1992. Sete milhões de pessoas foram empurradas para a extrema pobreza apenas no primeiro ano de conflito, e o efeito dominó não parou.

Onde começou a queda livre rumo ao caos?

Para compreender a tragédia atual, é necessário traçar a cronologia de uma traição política que se transformou em genocídio.

  • • 2019: A queda do ditador Omar al-Bashir, após décadas de poder, abre uma janela de esperança democrática.
  • • Outubro de 2021: O General Abdel Fattah al-Burhan (líder das Forças Armadas Sudanesas – SAF) e o General Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti (líder das Forças de Apoio Rápido – RSF), executam um golpe de Estado conjunto, dissolvendo o governo de transição civil.
  • • 15 de abril de 2023: A tensão entre os dois líderes explode em guerra aberta. O motivo central foi a resistência de Hemedti em integrar as suas milícias RSF no exército regular. Os combates iniciam-se em Cartum e espalham-se rapidamente.
  • • 2024: O conflito deixa de ser apenas militar para tornar-se territorial e étnico, especialmente na região de Darfur, onde surgem relatos de limpeza étnica.
  • • 2025: O Sudão torna-se na maior crise de deslocados do mundo, ultrapassando os 12 milhões de refugiados e deslocados internos.
  • • Abril de 2026: A ONU acusa formalmente as RSF de atos de genocídio e crimes contra a humanidade – 33,7 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária urgente.

Qual o preço humano de uma guerra esquecida?

O impacto do conflito não se mede apenas em baixas militares, mas na destruição sistemática da infraestrutura de vida.

  • Insegurança Alimentar: Mais de 21 milhões de pessoas enfrentam fome aguda. Em zonas como o Darfur do Norte, a taxa de malnutrição aguda atinge os 53%, um valor catastrófico.
  • Colapso da Saúde: Cerca de 37% das instalações de saúde estão inoperacionais. O sistema foi alvo de mais de 200 ataques documentados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), resultando na morte de centenas de profissionais e doentes.
  • Educação Perdida: Uma geração inteira de crianças está fora da escola, sendo muitas vezes recrutadas à força por ambos os lados do conflito.
  • Deslocação em Massa: Até 10 de abril de 2026, contabilizavam-se 14 milhões de pessoas forçadas a abandonar as suas casas, das quais 4,4 milhões fugiram para países vizinhos como o Chade e o Egito.

“Estes números não são abstratos; refletem famílias desfeitas, crianças fora da escola e uma geração cujas perspetivas estão a diminuir inexoravelmente” (Luca Renda, Diretor do PNUD)

Estaremos a testemunhar o fim do Sudão como o conhecemos?

A dualidade de poderes criou um vácuo de governação onde a economia de guerra impera. Onde antes existiam mercados, existem agora bloqueios militares. Na ilha de Tuti, por exemplo, os habitantes sofreram um bloqueio de 18 meses imposto pelas RSF, onde o acesso a comida e medicamentos era condicionado a pagamentos extorsivos.

Apesar dos apelos internacionais, o financiamento humanitário continua muito abaixo das necessidades reais. A assistência chega apenas a uma fração dos 33,7 milhões em risco. O Sudão não é apenas um país em guerra; é um país onde a estrutura básica da civilização está a ser desmantelada peça por peça.

Se o conflito não for interrompido de forma imediata e permanente, as projeções da ONU indicam que a pobreza poderá atingir 80% da população até ao final de 2026, consolidando o Sudão como o maior exemplo moderno de um Estado falhado.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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