Óbito/Luís Represas: “As suas músicas foram o nosso mapa, paisagem e código secreto” – Missão Timor
O gestor Rui Pereira Marques, que promoveu a iniciativa Missão Paz em Timor — Lusitânia Expresso, no início da década de 1990, lembra o músico Luís Represas, que morreu hoje, em Lisboa, e o modo como Timor os “fez companheiros de caminho”.
O fundador da Fórum Estudante, antigo alto-comissário para a Imigração, garante, porém, que dessa proximidade com Luís Represas “fica muito mais”, pois as suas canções “foram o nosso mapa, a nossa paisagem, o nosso código secreto”, como escreveu hoje, numa mensagem nas redes sociais.
“Todo o nosso compromisso por Timor, nos idos dos anos 90, tinha um hino e uma voz que sempre acompanhava tudo o que fazíamos”, recorda Rui Marques, a propósito da canção “Timor”. “Quando parecia uma causa impossível – ‘se outros esquecem, cantemos nós’ – essa música animava-nos para continuar. Começou numa campanha na [Rádio] Renascença e expandiu-se em toda a epopeia do Lusitânia Expresso e, naturalmente, esteve presente no momento da independência” de Timor-Leste.
“Mas, para nós, Luis Represas e o Trovante eram mais do que isso”, prossegue Rui Marques. “As suas músicas foram o nosso mapa, a nossa paisagem, o nosso código secreto, os nossos sorrisos e também as nossas lágrimas. Por isso, quando em março revisitámos ao vivo esse roteiro [nos concertos que voltaram a reunir os Trovante], recordámos quão significativo foi para nós. Dizia-nos tanto. […] Devemos-lhe muito mais do que imaginávamos”.
A Missão Paz em Timor – Lusitânia Expresso, iniciativa de solidariedade realizada em 1992, apoiada pela revista Fórum Estudante, reuniu cerca de 120 jovens de mais de 20 países, e personalidades como o anterior Presidente da República Ramalho Eanes, com o objetivo de homenagear as vítimas do Massacre de Santa Cruz, em Díli, ocorrido no ano anterior. A viagem visava furar o bloqueio e denunciar a ocupação, mas foi bloqueada pelas forças indonésias.
A canção “Timor”, com música de João Gil e letra de João Monge, que vinha do álbum do grupo “Um destes dias” (1990), voltou a juntar os Trovante em 1999 e transformou-se num dos principais temas da luta que levou à independência timorense. A letra viria a ser traduzida para tetum, por Xanana Gusmão.
Represas foi convidado pelo então Presidente da República Portuguesa Jorge Sampaio para o acompanhar na visita oficial a Timor-Leste, em 2000. Em 2016, seria condecorado com a Medalha da Ordem de Timor-Leste pelo Presidente Taur Matan Ruak.
Hoje, entre as reações à morte do músico, o escritor Rui Zink, também no Facebook, recorda uma história do Liceu Pedro Nunes quando ele, mais pequeno, atacado por outros alunos, foi defendido pelo mais velho Luís Represas.
“A coisa ia acabar mal, quando chegam os ainda mais crescidos Luís e Manuel Faria [cofundador dos Trovante] a desenervar a cena com a segurança do Wyatt Earp e do Doc Halliday. Eram a epítome do ‘cool’ quando a palavra ‘cool’ ainda não era ‘cool’. Décadas depois, eram também ‘gente normal’, mesmo quando enchiam estádios e não era normal quem enchia estádios portar-se como gente normal. O Luís era em palco o mesmo que fora de palco. O eterno cabelo à candeeiro dos anos 70, o sinalzinho, o desassombro”.
A Embaixada de Cuba em Portugal reagiu igualmente “com profunda dor” à morte de Luís Represas. O músico gravou neste país o seu primeiro álbum a solo, “Represas”, contando com vários músicos locais, entre os quais Pablo Milanés (1943-2022).
Luís Represas “foi um inesquecível amigo de Cuba e um fervente admirador da música cubana”, lê-se na mensagem da embaixada, que recorda os momentos iniciais de uma “longa relação” do músico com Cuba, iniciada em 1978, quando atuou no Festival Mundial da Juventude, “que incluiu concertos na ilha, gravações e colaborações com algumas das figuras mais importantes da trova cubana”.
A CGTP, por seu lado, recordou Luís Represas como “figura marcante da música portuguesa, cantor e compositor com uma carreira de 50 anos, homem empenhado e comprometido com os valores da Revolução do 25 de Abril e com as causas da justiça social”, tendo participado “solidariamente em muitos momentos e iniciativas da vida e da luta dos trabalhadores e da CGTP-IN”.
Para esta central sindical, “ficam as memórias e, para sempre, o seu legado, trabalho e música, que contribuem para uma sociedade mais justa e fraterna, de progresso, num mundo de paz”.
MAG // MLL
By Impala News / Lusa