Poluição invisível: estudo deteta presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga

Um estudo liderado pela Universidade de Coimbra revela a presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga.

Poluição invisível: estudo deteta presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga

A poluição por resíduos sintéticos deixou de ser um problema exclusivo dos grandes centros urbanos ou das zonas fortemente industrializadas. Uma investigação pioneira, coordenada por especialistas da Universidade de Coimbra, confirmou a presença generalizada de microplásticos nos rios Mondego e Vouga.

Os cientistas detetaram estas partículas nocivas em todas as estações de amostragem instaladas ao longo de ambas as bacias hidrográficas. O cenário traçado pelo relatório final compromete seriamente o equilíbrio ecológico de dois dos cursos de água mais importantes e estratégicos do Centro do país.

O impacto alarmante dos microplásticos nos rios do Centro

As análises efetuadas às amostras de água e sedimentos revelam que a acumulação destes poluentes atravessa de forma transversal os diferentes ecossistemas fluviais. Os investigadores identificaram uma grande variedade de polímeros sintéticos, com destaque para fragmentos de embalagens descartáveis, microfibras têxteis e resíduos químicos associados à atividade agrícola de larga escala.

Esta diversidade de materiais serve de prova aos especialistas de que a contaminação provém de múltiplas pressões antropogénicas, dispersas pelo território e ligadas ao quotidiano das populações.

Mecanismos de dispersão e partículas encontradas

O comportamento destas substâncias nas linhas de água também preocupa a comunidade científica devido à sua enorme capacidade de dispersão. De acordo com as conclusões da equipa técnica, as microfibras microscópicas apresentam uma elevada persistência e flutuam tanto na superfície dos rios como se depositam nos fundos lodosos.

Além disso, foram encontrados fragmentos rígidos com menos de cinco milímetros, resultantes da degradação de plásticos de maiores dimensões que foram abandonados nas margens. Surpreendentemente, estas partículas atingiram zonas rurais isoladas através da força do vento e do escoamento das águas das chuvas.

Ameaça direta à biodiversidade e saúde humana

O impacto imediato desta contaminação faz-se sentir na fauna e na flora locais, colocando em risco a biodiversidade das bacias do Mondego e do Vouga. Organismos invertebrados, anfíbios e várias espécies de peixes sofrem uma exposição constante e acabam por ingerir estas partículas de forma involuntária.

O fenómeno gera um processo de bioacumulação em que as toxinas integradas nos plásticos sobem progressivamente na cadeia alimentar regional, ameaçando os recursos biológicos e a própria saúde das comunidades humanas que dependem economicamente da pesca fluvial.

Urgência de medidas estruturais nos ecossistemas nacionais

Esta realidade vem validar dados obtidos em monitorizações anteriores noutros ecossistemas nacionais, sustentando a tese de que a contaminação estrutural e invisível é um traço comum na hidrografia portuguesa. Perante o diagnóstico, os biólogos e engenheiros do ambiente que assinam o documento insistem que a reversão deste quadro exige medidas urgentes.

Entre as prioridades apontadas estão a modernização imediata das ETAR urbanas, o reforço da fiscalização sobre as descargas industriais e a alteração dos modelos agrícolas que recorrem a plásticos de cobertura sem o devido tratamento de resíduos. Sem ações coordenadas entre o Governo e os municípios locais, a degradação ambiental destes rios continuará a avançar sem retorno.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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