Esquadra do Rato: os depoimentos das vítimas revelam horas de crueldade e sadismo

As vítimas da esquadra do Rato descrevem horas de terror num posto policial numa das zonas mais nobres de Lisboa. Os depoimentos confirmam um padrão sistemático de tortura sobre os mais vulneráveis.

Esquadra do Rato: os depoimentos das vítimas revelam horas de crueldade e sadismo

A esquadra do Rato voltou a chocar Portugal. Os depoimentos completos das vítimas e dos polícias envolvidos nas alegadas torturas e violações ocorridas no posto policial do do Largo do Rato, em Lisboa, são agora públicos, confirmando o que o Ministério Público descreveu como padrão sistemático de crueldade.

“Uma coisa de outro mundo”, classificou o ministro da Administração Interna, Luís Neves. A revista Sábado, que teve acesso aos depoimentos, publica nesta semana as histórias das vítimas, e o que revelam é perturbador.

Vítimas escolhidas a dedo

O que emerge dos depoimentos é um padrão deliberado e sistemático. As vítimas foram escolhidas entre os mais vulneráveis: imigrantes sem documentos, toxicodependentes, sem-abrigo. Pessoas que o próprio Ministério Público descreve como “os seres humanos mais fragilizados“.

Nove meses depois dos acontecimentos, Paulo C., 28 anos, toxicodependente e sem-abrigo, ainda se recorda do “animal” tatuado num dos antebraços do agente Guilherme Leme. O mesmo detalhe foi referido por K. Mohamed, 29 anos, cidadão egípcio, com maior precisão. “Era uma cobra.” Ambos descreveram à procuradora Felismina Carvalho Franco as horas de terror passadas no posto policial.

O que os vídeos mostram

As imagens, filmadas pelos próprios polícias e partilhadas num grupo de WhatsApp com cerca de 70 membros, são devastadoras. Mostram duas vítimas a serem atingidas no rosto com luvas de boxe “como se fossem um saco”. Mostram vítimas lesionadas. Mostram outra a ser sujeita a pontapés nas algemas que tinha a agrilhoar-lhe os pés, enquanto o agente Guilherme Leme lhe cuspia em cima.

Nenhum dos colegas dos arguidos que recebeu os vídeos fez algo durante meses.

Um dos principais suspeitos denuncia colegas

Uma das revelações mais perturbadoras é que um dos principais suspeitos denunciou colegas e práticas que lhe foram “instruídas” pelos mais velhos, como dar um “tratamento” a determinados detidos. O que acontecia na esquadra do Rato não era ato isolado. Era, segundo o Ministério Público, um padrão sistemático.

O estado do processo

Esta é a terceira operação policial desde julho de 2025 relacionada com alegações de tortura e violação. O processo envolve já dezenas de agentes, com quatro em prisão preventiva e outros em diferentes medidas de coação.

Dois dos agentes já foram pronunciados para julgamento nos mesmos termos da acusação do Ministério Público. Guilherme Leme, de quase 23 anos, é acusado de 29 crimes, entre eles seis de tortura e uma violação consumada em coautoria. O caso foi denunciado pela própria PSP ao Ministério Público em 6 de março de 2025.

Luís Martins; WiN
Imagem artificial

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