Do rapto de Maduro ao petróleo iraniano: o mapa das intervenções de Trump no mundo

Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Donald Trump bombardeou o Iémen, a Síria, o Iraque e o Irão, capturou Nicolás Maduro na Venezuela e ameaçou anexar a Gronelândia, o Canadá e o Canal do Panamá. A ameaça de tomar o petróleo iraniano foi mais um capítulo de uma política externa sem precedentes na história recente dos Estados Unidos.

Do rapto de Maduro ao petróleo iraniano: o mapa das intervenções de Trump no mundo

Esta noite, Donald Trump cancelou os ataques aéreos e bombardeamentos previstos contra o Irão horas depois de os ter anunciado. “Tendo em conta que as negociações com a República Islâmica do Irão foram levadas ao mais alto nível da liderança iraniana e aprovadas, eu, na qualidade de Presidente dos Estados Unidos da América, cancelei os ataques aéreos e bombardeamentos previstos contra o Irão para esta noite”, escreveu no Truth Social.

Trump indicou que as discussões foram “aprovadas por todas as partes envolvidas, incluindo os Estados Unidos, Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Turquia, Paquistão, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Egito e outros”, sem especificar os detalhes concretos do que foi acordado. Acrescentou que “a hora e o local da assinatura serão anunciados em breve” e garantiu que o bloqueio naval norte-americano aos portos iranianos se mantém em vigor.

A inversão foi total. Esta manhã, Trump tinha prometido atacar o Irão “com muita força esta noite”, pela terceira noite consecutiva, e ameaçado tomar a ilha de Kharg, responsável por 90% das exportações de petróleo iraniano. O padrão mantém-se: ameaça pública, pressão diplomática dos aliados do Golfo, cancelamento com promessa de retomar se o acordo falhar. A diferença desta noite é que Trump fala pela primeira vez em “assinatura” e numa aprovação ao “mais alto nível da liderança iraniana”, o que sugere um avanço mais concreto do que nas ocasiões anteriores.

Este cancelamento enquadra-se num padrão de comportamento que tem caracterizado a sua política externa desde que regressou ao poder: intervenção militar sem aviso, ameaças territoriais e controlo de recursos naturais estratégicos. Este é o mapa do que Trump fez e ameaçou fazer desde janeiro de 2025.

Venezuela: o rapto de Maduro

A operação mais chocante da segunda presidência de Trump foi a captura de Nicolás Maduro. Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, forças especiais norte-americanas entraram em Caracas, atacaram uma instalação militar fortemente protegida no coração da capital venezuelana e capturaram o Presidente e a sua mulher, Cilia Flores. Pelo menos sete explosões foram ouvidas em torno de Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, por volta das 2h da madrugada, hora local.

Maduro e a mulher foram transportados algemados para os Estados Unidos para responderem a acusações de narcoterrorismo perante os tribunais norte-americanos. Trump acompanhou a operação em tempo real a partir da sua propriedade em Mar-a-Lago, rodeado pelo secretário de Estado Marco Rubio, pelo secretário da Defesa Pete Hegseth e pelo general Dan Caine.

Na conferência de imprensa que se seguiu, Trump descreveu a operação como “bem planeada e executada com precisão” e anunciou que os Estados Unidos iriam gerir a Venezuela temporariamente até que uma “transição justa e democrática” pudesse ocorrer. Acrescentou que a operação “não custará nada aos americanos” porque as reservas petrolíferas venezuelanas cobrirão todas as despesas.

A comparação histórica é inevitável: foi a maior operação militar norte-americana na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989, quando os EUA capturaram o ditador Manuel Noriega.

Irão: três noites de bombardeamentos, uma ameaça ao petróleo e um cancelamento

Paralelamente à Venezuela, o Irão tem sido o outro grande teatro de operações militares norte-americanas. O mais recente ponto do conflito eclodiu após um helicóptero Apache norte-americano ser atingido por um drone iraniano perto do Estreito de Ormuz. Washington atribuiu a responsabilidade a Teerão e lançou ataques contra múltiplos alvos no território iraniano em três noites consecutivas.

Esta manhã, Trump foi mais longe e ameaçou tomar a ilha de Kharg, comparando a estratégia à aplicada na Venezuela. “Em algum momento num futuro não muito distante, tomaremos a ilha de Kharg e outros pontos de infraestrutura petrolífera, e assumiremos o controlo total dos seus mercados de petróleo e gás, tal como fizemos com a Venezuela”, escreveu. O Irão respondera com a declaração de encerramento total do Estreito de Ormuz e com a ameaça de transformar o Médio Oriente “num inferno” para os EUA. Esta noite, Trump recuou.

Gronelândia, Canadá e Canal do Panamá: as ameaças territoriais

Antes das intervenções militares, Trump já tinha surpreendido o mundo com ameaças de expansão territorial sem precedentes. Desde o final de 2024, afirmou repetidamente querer adquirir a Gronelândia, incorporar o Canadá como 51.º estado dos EUA e retomar o controlo do Canal do Panamá.
Numa ceia no exclusivo clube Alfalfa em Washington, em fevereiro de 2026, Trump transformou estas intenções numa piada com evidente conteúdo político: “Nunca foi minha intenção converter a Gronelândia no estado número 51. Quero converter o Canadá no estado número 51, a Gronelândia será o estado número 52, e a Venezuela pode ser o estado número 53.”

O Primeiro-Ministro da Gronelândia respondeu que o território “não está à venda e não estará à venda”. O Canadá rejeitou qualquer ideia de incorporação. O Panamá afirmou que a sua soberania “é inegociável”. Trump não recuou em nenhum dos casos. No Canal do Panamá, a pressão norte-americana levou a concessões práticas: Washington anunciou ter “restaurado o acesso privilegiado dos EUA” à via marítima, numa formulação que o Panamá contesta mas que Trump apresenta como vitória.

Cuba: pressão crescente

Em junho de 2025, Trump assinou um Memorando Presidencial de Segurança Nacional com o objetivo de fortalecer a política dos Estados Unidos em relação a Cuba. A administração recolocou Cuba na lista de Estados patrocinadores do terrorismo e intensificou as sanções.
Imediatamente após a captura de Maduro, Trump enviou um aviso direto a Havana: “Acho que Cuba será um assunto sobre o qual acabaremos falando, porque Cuba é uma nação em crise neste momento. Queremos ajudar as pessoas.” O secretário de Estado Marco Rubio, cujos pais fugiram de Cuba, foi ainda mais explícito nas suas declarações públicas sobre o futuro de Havana.

Iémen, Síria, Somália e Nigéria: os bombardeamentos menos noticiados

Além da Venezuela e do Irão, as forças norte-americanas bombardearam o Iémen, a Somália, o Iraque, a Síria e a Nigéria desde janeiro de 2025, numa série de operações apresentadas como respostas a ameaças terroristas ou de narcotráfico. A maioria destas ações foi anunciada nas redes sociais de Trump e depois confirmada pelo Comando Central das Forças Armadas dos EUA.
O padrão e a doutrina

O fio condutor de todas estas ações é a Doutrina Monroe, o princípio que os Estados Unidos invocam há duzentos anos para justificar intervenções no hemisfério ocidental e, na versão de Trump, também além dele. O Presidente enquadra cada operação em termos de autodefesa, combate ao narcotráfico ou libertação de povos oprimidos. O resultado prático é sempre o mesmo: controlo de recursos, eliminação de líderes inconvenientes e projeção de poder militar.
O cancelamento do ataque ao Irão desta noite não encerra o padrão. Adia-o. Trump prometeu que os ataques serão retomados “a qualquer momento” se um acordo aceitável não for alcançado. A assinatura prometida está por confirmar. E a história recente do conflito mostra que declarações de avanço nas negociações já foram seguidas de novos ataques. O mundo aguarda.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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